Ciro de Oliveira Machado
Referência:
EUA respaldam pedido argentino de mais US$ 5 bi
O Estado de São Paulo, primeira página, 5 de agosto de 2001

FMI socorre Brasil com US13,8 bi
Folha de São Paulo, primeira página, 4 de agosto de 2001


07/08/2001

Nossa Opinião

Os Governos dos países eternamente emergentes, tais como os da Argentina, do Peru, do Brasil, uma vez mais se dirigem ao FMI, ao Banco Mundial e aos Bancos Internacionais, a cata de dólares para honrar seus próximos vencimentos internacionais, sejam os relativos a juros, sejam o pagamento dos principais das dívidas acumuladas, sejam os capitais de giro para suas importações (do governo ou das empresas) presentes, passadas e futuras.

Será que esta é a única solução para tais problemas ou algo poderá ser feito através da emissão do que chamamos de moeda neutra de desenvolvimento?

Antes desta resposta são necessárias algumas considerações.

Países eternamente emergentes são países endividados em dólares a tal ponto que são os dólares que fazem sua política monetária: se há dólares, emite-se a moeda nacional, se não há dólares, não se emite, quando não são os dólares o próprio meio circulante (como por exemplo, na Argentina).
A Argentina, como o Peru e o Brasil, diminuem drasticamente o meio circulante quando do pagamento de contas externas. Este fato causa recessão e seus fenômenos correspondentes de desemprego, fome, violência etc.. A rigor, a diminuição do meio circulante faria com que os preços diminuíssem, o que, entretanto, não acontece de imediato.
Esta recessão permanece até que haja outro ingresso (por empréstimo, por aquisições de empresas nacionais ou por investimentos em outras empresas multinacionais) de dólares. Aí veremos que a chegada de novos dólares se dá, de preferência, pelo aumento das influências multinacionais nestes países, que compram a melhores empresas, desde uma Metal Leve e Bancos Nacionais, até empresas de características oligopolistas pertencentes ao Governo como, por exemplo, telefônicas, distribuidoras de energia, concessionárias de pedágio nas estradas etc..

Se analisarmos a trajetória econômica dos países eternamente emergentes, não veremos senão a repetição desta seqüência de fatos, cujo resultado maior seria uma apropriação indébita globalizada (feita pelos controladores das finanças mundiais) de todos os setores lucrativos destes países.

Analisemos agora os juros que o país tem de pagar ao FMI, ao Banco Mundial e aos Bancos Internacionais, ligados às grandes empresas multinacionais, ou seja, aos controladores das finanças mundiais.
Juros são parte do rendimento dos capitais emprestados e deveriam estar contidos num rendimento muito maior do que o próprio valor desses juros! Se determinado país deve pagar juros acima dos rendimentos dos capitais emprestados, este país estará caminhando para um inevitável default (total inadimplência).
Isto se dá em todos os países eternamente emergentes, que, sem recursos para o pagamento dos juros, muito menos pagarão o principal das dívidas acumuladas e os capitais de giro para suas importações, vivendo eternamente em risco de default, utilizando suas minguadas reservas de dólares no pagamento das contas já vencidas. São, porém, à última hora, salvos pelos controladores das finanças mundiais, que fornecem os dólares para o pagamento das próximas contas pois querem que o processo continue eternamente, num desequilíbrio crescente, cujas conseqüências já cansamos de apontar em nossas análises históricas da era do dólar.

Vamos, agora, à resposta da questão que foi formulada!

Não iremos falar numa retomada do desenvolvimento após a inevitável crise mundial que se avizinha, cenário que nos parece o mais provável. Iremos hoje falar na retomada do desenvolvimento por qualquer país, seja do terceiro, do segundo, ou do primeiro mundo (exceto EUA), através de uma correta independência monetária, que o levará ao equilíbrio e a independência econômica. Vamos falar sobre a adoção, a partir de hoje, da moeda de desenvolvimento neutra por um determinado país, já descrente de todas as possibilidades de sucesso num mundo dominado pelo dólar.

O que é a moeda de desenvolvimento neutra?
É uma moeda fornecida pelo Banco Central a uma determinada empresa, como capital de giro específico para o aumento de produção desta empresa, esta empresa já estando de posse de todas as condições materiais para este aumento de produção.
Vamos dar um exemplo de uma fábrica de cimento, produzindo mensalmente 1.000.000 de sacas com um capital de giro de R$ 10.000.000,00. Suponhamos que esta empresa tenha investido em novo sistema de transporte, novos fornos, treinado novos empregados e esteja apta a produzir 10% a mais, ou seja 1.100.000 sacas. Esta empresa receberá do Banco Central 10% a mais de capital de giro, ou seja, R$ 1.000.000,00, que serão necessários e suficiente para este aumento de produção. Notemos que esta emissão não será inflacionária pois existirá no mercado R$ 1.000.000,00 a mais, correspondente a 100.000 sacas de cimento a mais. Esta moeda neutra será, necessariamente, segurada por um competente sistema de seguros, para que só seja utilizada para tal finalidade. Assim seria para todas as empresas do país, a começar do setor primário, indo até os serviços, numa real democratização monetária...
Ao injetarmos moeda para o crescimento, digamos, da agricultura, será natural que os outros setores também cresçam a taxas comparáveis. O crescimento terá, no início, altas taxas, devido ao aproveitamento de todas as ociosidades do sistema, sejam as de máquinas, sejam as de homens, para depois se firmar no ritmo do aumento populacional e no ritmo das novas invenções de máquinas ou produtos. Notemos que o Banco Central ao fornecer novo capital de giro para as empresas, ele estará fornecendo uma massa salarial, apta a contratar novos empregados, e uma massa de lucros e rendas, aptas a investir e a dar um normal rendimento às aplicações do público em ações e títulos bancários. A Nova Economia Política sempre mostrou que o valor dos produtos produzidos é sempre igual a massa salarial, de lucros e de rendas, ou seja, o valor da oferta é igual ao valor da demanda.
E o país poderá crescer, e exportar, mesmo sem ter um único dólar. Iremos então tornar realidade a máxima das máximas na Nova Economia Política e sua moeda neutra de desenvolvimento: o do crescimento sem limites! E nada poderia obstar este crescimento!

Nada mesmo?
E o homem?
Sim, pois o terrível panorama mundial tem o egoísmo do homem a sustentá-lo.

Quer nos parecer que entre os controladores das finanças mundiais, os homens públicos e os principais empresários dos respectivos países, pouca diferença existe. Existe sim, em comum, o egoísmo. É um egoísmo sem limite de controlar o mercado adjacente por meio da moeda: os homens públicos e os principais empresários controlam a moeda nacional, e os controladores das finanças mundiais, controlam a moeda internacional, o dólar. A eles não importa a capacidade de trabalho ou a de realização de cada um. O importante é que haja a disposição de dar a maior parte do lucro a esses controladores. Existe sim uma verdadeira sociedade entre eles, sociedade que não se desfaz, uma sociedade permanente, uma sociedade opulenta, em que o mais sabido ocupa sempre o primeiro cargo.

Supondo utopicamente que a adoção da moeda de desenvolvimento neutra seja realizada por um verdadeiro ESTADISTA de um determinado país, quais seriam os acontecimentos econômicos que se seguiriam?

Em havendo desenvolvimento sem a presença de um único dólar, os dólares perderiam seu significado e seu falso "poder universal de compra" e, os demais países, também adotariam a moeda de desenvolvimento neutra.
O dólar passaria a não mais ser aceito em transações internacionais, voltando a ser apenas a moeda nacional dos Estados Unidos. Com o fracasso do mercado de derivativos e de futuros, pela perda do poder aquisitivo do dólar (fora as terríveis baixas no preço das ações internacionais, que não terão o dólar a sustentá-las), é de se esperar uma terrível inflação nos Estados Unidos, pois fora dele está uma quantidade de dólares muito superior a que está dentro.
A crise gerada continuará até que seja criada uma moeda internacional de desenvolvimento neutra, através da qual todos os países comercializarão em equilíbrio.
Esta é a segunda alternativa utópica.

A primeira alternativa real, a depressão máxima que se avizinha, está nas opiniões anteriores.

Preferencialmente gostaríamos de realizar a segunda alternativa.
O mundo agradeceria.

Já oferecemos ao Brasil, Argentina, Peru e Cuba, nossos serviços de Assessoria. Até então, não houve qualquer manifestação...





Ciro de Oliveira Machado