Ciro de Oliveira Machado
Referência:
Dr. Moacir Cavalheiro Clínica Geral - Cardiologia

Receita Médica
Sr. Ciro de Oliveira Machado
Passiflorine (tomar 1-2 drágeas ao deitar)

01/03/2001

Nossa Opinião

Aqui estou, após vinte dias de UTI, por problemas cardíacos: batimentos exagerados do coração (cerca de cento e sessenta por minuto) e arritmia. Seis conversões por choques, (muitos) remédios e aqui estou de volta ao mundo.

A causa não foi detectada pela equipe médica que me atendeu, exceto pelo único médico a que procurei por indicação de amigos, após minha saída do hospital, o Dr. Moacir Cavalheiro, misto de médico e de parapsicólogo, que falou exatamente sobre aquilo que eu já desconfiava: a causa de meu "stress" está relacionada a meus trinta anos de atividade como economista teórico, ou seja, está ligada ao processo de criação de "A Nova Economia Política".

A prescrição do Dr. Cavaleiro foi a de um calmante (Passiflorine), e, acima de tudo, paciência.

Mas, como explicar porque a "Nova Economia Política" é a causa do meu "stress"? Seria a pergunta que poderia ser feita...

Irei por partes nesta explicação, que visa relacionar o conhecimento por mim já adquirido de "A Nova Economia Política", aos muitos problemas da economia atual - razão de minhas perturbações...

A continuidade "matemática" do processo histórico a que fui induzido a considerar durante este trabalho, desde os tempos dos homens das cavernas até os modernos países de hoje, ou seja, o fato de que a economia política do sistema subsequente tenha raízes na economia política do sistema anterior, me fez prever o desencadeamento de grave crise mundial neste início de milênio, mais grave que a Grande Depressão de 1929, que se abateu principalmente nos Estados Unidos.

Já estamos diante dos verdadeiros sinais desta Depressão Máxima: contínua queda nas bolsas de ações de todo o mundo; desemprego, que se alastra em percentuais cada vez maiores (agora também nos Estados Unidos); violência de todos os matizes provocada por este desemprego; queda de atividade do sistema econômico, que se mantêm mais em função de um falso crédito em dólares, disponível (mundialmente) aos super-endividados consumidores; falências, principalmente de empresas voltadas à fabricação de bens de investimento tradicionais; e principalmente, o agravamento destes sintomas, pois desemprego só causa mais desemprego...

Somos testemunhas do desperdício de homens e de tecnologia, ausentes do sistema produtivo, que cada vez produz menos; dos milhões de desempregados à mingua; da violência que atinge nossos lares e nossas ruas, perseguindo nossas esposas, nossos filhos e netos, e a nós mesmos; da falência de nossos órgãos policiais no impedimento desta violência, da falência dos Governo nacional e estrangeiros para impedir esta crise; na "negligência benigna" do Governo dos Estados Unidos para com esta mesma crise.

Sou testemunha, e mesmo sabendo de sistemas econômicos alternativos - "A Nova Economia Política" - hoje, nada posso fazer.

Em meu estudo já elegi a causa principal de todos esses males: eles provêm da única moeda internacional hoje existente no mundo: o dólar. (E dólar, para mim, em última instancia, é poder de compra sobre mercadorias produzidas nos Estados Unidos...)

No capítulo XVI do livro "A Nova Economia Política" publicado no início de 1998, "O mundo após 1971", podemos ler:

"Vamos supor que a classe trabalhadora ainda empregada no mundo, com baixos salários e endividada, não tenha mais poder de compra adicional. (Esta seria uma simples previsão ou poderíamos considerá-la quase uma certeza.)

Todos os investidores continuariam cada vez mais a jogar nos mercados financeiros, sejam os reais, de futuros e de opções, receptáculos de todo o poder de compra ainda existentes. Não haveria mais nenhum tipo de mercado para se investir. Os mercados financeiros reais, devido à baixa das vendas e diminuição ou mesmo anulação dos lucros das empresas, cairiam abruptamente. As corporações se sentiriam empobrecidas. Os mercados de derivativos e de futuros seriam arruinados. Os Estados Unidos ainda teriam os juros sobre os dólares como único recurso. Os juros seriam majorados.

Até que virá a pergunta final: qual será o poder de compra do dólar?

Dentro deste quadro final caótico poderíamos observar a terrível inflação nos Estados Unidos devido ao retorno dos dólares no exterior e dos dólares vencidos emprestados ao Governo, à cata de qualquer tipo de mercadorias.

No prosseguimento da crise, os bancos nacionais e internacionais deixariam primeiro, de receber os empréstimos especulativos, segundo, os empréstimos para as empresas, terceiro, os empréstimos para pessoas físicas, e quarto, nem mesmo os juros dos empréstimos para outros governos.

Pelo fato de que haveria tanta perda no mercado mobiliário, as empresas deixariam de investir, o que levaria o multiplicador negativo de investimentos a gerar um desemprego recorde (que já chegou, em 1933, a 25% da força de trabalho).

Tendo em vista a terrível situação econômica, poderíamos admitir a quebra geral dos bancos internacionais, primeiro com seríssimos prejuízos aos Estados Unidos e depois, com sérios prejuízos direcionados aos demais países, inclusive os países superavitários tipo Japão, Alemanha, França etc., e países árabes exportadores de petróleo. Os países do Ex-Bloco Comunista. que ainda são capitalistas neófitos, aturdidos pela situação, estariam entre os mais prejudicados. Lembremo-nos de que esses países dispõe de armamentos nucleares de potência igual à dos Estados Unidos.

Na esteira desta Depressão Máxima, com Rússia, Alemanha, Japão, Países Árabes e incontáveis outros, inapelavelmente contra os Estados Unidos, também aterrorizados pela inflação em curso, a que situação poderíamos chegar senão às grandes catástrofes?

É certo que tal previsão é bastante pessimista, mas haverá lugar para otimismo? Poderíamos imaginar qualquer solução para o problema do dólar?"

Todos os sinais estão presentes, agora, neste início do terceiro milênio, me tornando (pré)vidente. Mas será o exercício da vidência uma coisa fácil? Não, não é fácil, devido ao aspecto temporal, intimamente ligado ao livre arbítrio dos homens. Mesmo os sinais estando presentes, o final dessa economia política de hoje poderá durar meses (ou anos?), ao invés dos dias esperados. Haja visto o relacionamento entre os mercados puramente financeiros de futuros e de derivativos e os mercados reais de ações, este, completamente dominado por aquele, tratado na nossa Opinião de 25/04/00: Fundos perdem e bancos lucram na baixa da Bolsa (Gazeta Mercantil - Finanças e Mercados - 6 de abril de 2000).

Sei do destino da Economia Política, só não sei quando "A Nova" será iniciada!

Porém, antes deste desenlace (ou novo enlace), sofro pelos desempregados, sofro pela violência que nos cerca, sofro ao ver este mundo caótico, bem distante do mundo bem melhor que necessariamente teremos um dia, um mundo sem desempregados, sem violência, um mundo de paz.

Trata-se de um sofrimento real, contra o qual, hoje, nada posso fazer. O silêncio para com "A Nova Economia Política" (sem, até agora, qualquer discordância manifestada sobre os pontos analisados), atesta isso. Mas é um sofrimento (com bastante paciência) suportável, mesmo estando eu sujeito a batimentos arrítmicos de cento e sessenta por minuto. Depois do caos virá sempre a ordem, consubstanciada no conhecimento do que seja "A Nova Economia Política".

Esta seria a razão explicada do sempre presente "stress" que me acomete.


Ciro de Oliveira Machado