Ciro de Oliveira Machado
Referência:
Rumo ao desconhecido
Por Robert J. Samuelson, Revista EXAME Edição 713, nº 9 de 03/maio/2000

10/05/00

Nossa Opinião

Hoje vamos falar do futuro econômico dos Estados Unidos após a crise mundial que se avizinha. E este futuro econômico, como veremos, a despeito de todos os problemas que advirão, pode ser muito bom.

De início, vamos considerar a opinião de Robert J. Samuelson.
No artigo do título, Samuelson nos apresenta quase todos os condicionantes do desequilíbrio da economia norte-americana, quais sejam:

  1. o preço estratosférico das ações, principalmente as de alta tecnologia, tornando artificial o efeito riqueza entre os seus acionistas (que são contumazes consumidores) ao provocar cada vez mais a expansão da economia, dos lucros e das contratações;

  2. a ausência de poupança entre os consumidores norte-americanos, somado a seu endividamento junto aos bancos ou a seus gastos com os "lucros" que obtêm com suas ações;

  3. o custo barato dos investimentos nos Estados Unidos, que vêm financiando novas contratações, aquisição de computadores, construção de escritórios e campanhas publicitárias.

Em suas conclusões, Samuelson nos apresenta quatro cenários com probabilidades idênticas de realização, que vão desde não mudar nada, até aquele em que a economia sofre uma recessão aguda.

Note que dissemos antes "quase todos os condicionantes".

Segundo a "Nova Economia Política" está faltando uma análise completa deste fenômeno, pois deixou-se de considerar os condicionantes monetários deste desequilíbrio.

Condicionantes monetários

Em 1944, em Bretton Woods, o dólar foi imposto como moeda internacional. Hoje, existe uma presença exagerada de dólares nos mercados mundiais, com a concomitante presença de muitos dólares, com juros muito baratos, no mercado norte-americano, favorecendo o consumo.

O problema monetário maior teve início em 1971, data em que Nixon retirou a equivalência de US$35,00 por onça de ouro, passando a reinar uma total instabilidade no câmbio das moedas. Apesar dos EUA deverem naquela época US$300 bilhões ao exterior, o dólar se firmou, ainda, como moeda internacional (não havia o conceito de uma moeda neutra de desenvolvimento). Os Bancos Internacionais, formados em diversos paraísos fiscais, sem a obrigação de quaisquer depósitos compulsórios, utilizaram esta base monetária para multiplicar os dólares sem lastro (que continuavam a ser) emitidos pelo FED, num montante, hoje, de muitos trilhões.

Todos os dólares (papel moeda ou crédito em bancos) existentes fora dos Estados Unidos, são dólares sem qualquer tipo de lastro, obtidos numa seigniorage (percentual cobrado pelas casas da moeda para a emissão das moedas metálicas) de 100% pelo Governo e pelos conglomerados norte-americanos em aplicações no resto do mundo.

O mundo todo mantêm estoque de dólares que, ao serem utilizados pela primeira vez, adquiriram mercadorias utilizadas pelos Estados Unidos, sem a competente re-compra das mercadorias americanas.

Fazem parte deste montante o capital em dólares de todos os países para o comércio internacional, as "moeda nacionais em dólares" de países que não conseguem controlar suas próprias moedas, as reservas monetárias em dólares de bancos, pessoas jurídicas e físicas espalhadas pelo mundo. Este montante, devidamente multiplicado pelos Bancos Internacionais, é o resultado das compras norte-americanas em dólares em todo o mundo e dos empréstimos feitos em dólares, do governo norte-americano, FMI, Banco Mundial e outros bancos.

Devemos citar ainda os lucros em dólares canalizados aos mercados futuros e de opções (derivativos) que, de acordo com "A Nova Economia Política", ultrapassam de muito todos os montantes anteriores.

A constatação da Nova Economia Política é de que, diante de uma grande crise, as dívidas americanas do ponto de vista interno (déficit do Governo) e externo (déficit em suas transações externas), não terão poder de compra em termos de mercadorias produzidas nos Estado Unidos. Este fato levará esse país, no inevitável retorno desses dólares, a uma inflação desenfreada, sem falar das quebras gerais dos bancos que multiplicam os dólares e deixam ficar, em suas carteiras, apenas as promessas de pagamento que, necessariamente, não irão ocorrer.

Hoje, porém, um déficit como esse trás, como conseqüência, uma baixa acentuada nos preços das mercadorias vendidas nos Estados Unidos em comparação com os preços de outros países, quer sejam essas mercadorias produzidas internamente (poucas), quer sejam produzidas externamente (muitas). Uma análise pormenorizada deste fenômeno está contida no capítulo XVII, Livro III, de "A Nova Economia Política". O mercado dos EUA não tem consciência deste fato e os norte-americanos continuam a manter gastos exagerados, num nível de consumo descabido em se comparando a outros países.


Rumo ao abismo

Samuelson se atém apenas à observação dos fatos, dando probabilidades idênticas às ocorrências que prevê, seja a de continuar como está, seja a de recessão aguda.

Não somos dados às previsões mágicas mas lembramo-nos sempre de um ensinamento que nos foi passado: se determinado veículo, movendo-se em direção a um abismo, depois de ultrapassar determinada linha-limite, acima de determinada velocidade, é certo que cairá no abismo, mesmo que o motorista utilize os freios... Isto não é previsão mágica, é a constatação prévia de um acontecimento real...

Assim sendo, queremos afirmar que a economia do mundo já ultrapassou sua linha-limite e caminha para o abismo, mesmo que medidas radicas sejam hoje tomadas. Mas poderá ser uma breve permanência no abismo. Porque este abismo terá dentro de si todas as condições teóricas e práticas para um retorno à normalidade. Tais condições estarão baseadas em um equilíbrio econômico em suas formas fiscal, de comércio exterior e, principalmente, monetário, com o advento de uma moeda neutra de desenvolvimento.

Breve permanência no abismo

O conjunto a seguir de fatos e eventos, nos permite dar uma explicação do porquê desta "breve permanência" no abismo?:

  • Fato primordial do capitalismo em curso é que as corporações (que também controlam a emissão de moedas) procuram ter ganhos superiores àquilo que a lucratividade total real do sistema pode permitir. Para tanto, estabelecem o preço de suas mercadorias acima dos rendimentos da comunidade, tendo os Bancos de emprestar para esta comunidade o que falta para complementar suas vendas.

  • Os cidadãos do mundo, inclusive os "especiais" cidadãos norte-americanos, estão bastante endividados (devido a esses empréstimos) e não estão mais mantendo seus altos índices de consumo.

  • Os (grandes) lucros das corporações ou são aplicados em títulos norte-americanos ou em apostas no jogo de derivativos, nunca em investimentos reais.

  • Os negócios que estamos descrevendo giram em torno de aquisições e fusões e são apenas fomentadores de oligopólios e monopólios e portanto, de desemprego.

  • Como resultado, os índices das bolsas de ações (já bastante valorizadas) tendem a cair, devido a uma baixa geral em suas lucratividades.

  • Algumas tentativas serão feitas para manter as bolsas de ações nos níveis atuais, mas serão prejudicadas pela saída de grandes investidores.

  • Havendo uma queda pronunciada e contínua das bolsas (como vai haver), desaparecerão os riscos. Assim, o mercado de derivativos se esfumaça (com prejuízos irreparáveis para aqueles que ficarem com o mico), havendo conseqüente quebradeira geral de Bancos. Enfim, o mundo poderá viver (por um curto período) num verdadeiro caos econômico.

  • Com a cessação de todos os investimentos e queda geral do consumo, teremos mais desemprego, e desemprego só cria desemprego...

Este conjunto de fatos e eventos reais, que alguns estão ocorrendo e que outros inevitavelmente ocorrerão, são, em rápidas palavras, a constatação da direção em que caminha a economia mundial. Do mesmo modo que o veículo antes citado, esta é a constatação prévia de um desastre que ocorrerá a partir se um acontecimento real...

Essa crise lembrará a de 1929, porém, agora, será mundial, pois o imperialismo norte-americano ou seja, a moeda internacional não neutra dólar, tomou posse de todos os países. Esta crise é, realmente, a crise máxima que se abaterá sobre o planeta.

O que vai então ocorrer com os Estados Unidos?

Acreditamos que os Estados Unidos será o maior prejudicado na crise que se avizinha: (1) altíssima Inflação, (2) baixa bastante acentuada no consumo, (3) altíssimo nível de desemprego. Tudo isso, dando origem, sem dúvida, a uma radical mudança dentro de um país que hoje é tido como um modelo desenvolvimentista e de pleno emprego.

A saída do abismo

Mas os Estados Unidos também saberá o porquê desta crise e, por certo, dará a volta por cima. A capacidade de análise dos norte-americanos os fará vivenciar esta situação, identificando as razões primeiras desta crise, e a necessária solução, quais sejam:

  • o significado de uma moeda nacional não neutra (o dólar) se impor como moeda internacional e ser espalhada pelo mundo,

  • o significado da procura de um equilíbrio nas contas públicas e no comércio exterior, e

  • enfim, como quem sabe valorizar o conhecimento, irão analisar novas teorias e práticas, e porque não, as teorias e práticas contidas no livro "A Nova Economia Política".

Estamos certos de que os grandes estadistas norte americanos farão com que os Estados Unidos seja a primeira nação do mundo a sair desta crise e a liderar as demais, na busca de uma nova ordem, sob o império da liberdade e da justiça social para todos.

Veremos que irão retornar figuras públicas da dimensão de George Washington, que farão deste país um real líder e defensor absoluto de uma verdadeira democracia política e econômica mundial.