Ciro de Oliveira Machado
Referência:
Fundos perdem e bancos lucram na baixa da Bolsa
(Gazeta Mercantil – Finanças e Mercados – 6 de abril de 2000)

25/04/00

Nossa Opinião

Por que oscilam tanto os índices das Bolsas de Valores?

Será que estas oscilações se devem ao fato da Economia, sendo considerada uma ciência inexata, estar sujeita aos mais caprichosos comportamentos?

Ou será que existe uma lógica, uma história por trás desse comportamento aparentemente ilógico do mercado financeiro, que escapa à compreensão da maioria dos "investidores"?

Nossa opinião é de que a Ciência Econômica não é tão imprevisível como se pensa e que, na verdade, há uma lógica perversa por trás de tudo, a qual pode ser resumida numa pequena história que, a seguir, passaremos a contar.

Personagens da história

  1. Nossos personagens são em número de cinco:
    Bolsa de Valores de NY (operando US 10 bilhões por dia);
  2. Bolsa de Derivativos (Futuro e Opções) de NY (operando US$ 500 bilhões por dia, ou seja, tendo 50 vezes mais capital do que a Bolsa de Valores);
  3. uma determinada Organização Multinacional Financeira Líder no momento (com capital disponível de US$ 5 ou mais bilhões, apenas uma pequena parte do capital de 500 bilhõestransacionados na Bolsa de Derivativos);
  4. outras organizações multinacionais financeiras; e
  5. o público em geral e seus respectivos Fundos de Investimento, - os três últimos comprando e vendendo nas Bolsas.

Começo da história

Há 30 dias a Organização Multinacional Financeira Líder (OMFL) entrou num jogo de derivativos na Bolsa de Futuros e Opções de NY, apostando R$ 2 bilhões com o público em geral e seus respectivos Fundos de Investimentos, na valorização de 2% das ações da Bolsa de Valores de NY para o dia de hoje.

O dia de hoje

As ações estão valorizadas em 1,5%. Portanto, estão faltando apenas 0,5 % para que a valorização de 2% seja alcançada.

Os sagazes operadores da OMFL estão presentes na Bolsa de Valores de NY e farão tudo para que a aposta seja ganhadora, inclusive através do uso de parte de seus US$ 5 ou mais bilhões de capital próprio, para um eventual reforço na compra de ações... e, depois de feito tudo, ao final do pregão, está ganho o jogo principal!

No balanço do dia temos:

  1. valorização do Índice Dow Jones da Bolsa de Valores de NY em 0,51%, elevando a valorização das ações da Bolsa em 2,01%;
  2. gastos da OMFL para que tal valorização fosse alcançada: US$ 1,0 bilhão (dos US$ 5 ou mais bilhões de capital próprio);
  3. lucro da OMFL na Bolsa de Futuros e Opções de NY: US$ 2 bilhões;
  4. lucro final da OMFL no dia: US$ 1 bilhão (US$ 2 bilhões de lucro na Bolsa de Futuros, menos os US$ 1 bilhão aplicados para aumentar o índice das ações), mais o saldo da venda das ações.

Compreendendo o jogo

Mas não pode ser tão fácil assim, dirá o público em geral e seus respectivos Fundos de Investimento (que não sabem que estão sendo enganados) e que pensam que estão operando num mercado de concorrência perfeita.

O público em geral e seus respectivos Fundos de Investimento não sabem que o capital envolvido na compra e venda das ações reais (Índice Dow Jones) é apenas uma fração do capital especulativo sem limite, que ronda o mercado de derivativos.

O público em geral e seus respectivos Fundos de Investimento não sabem que este capital especulativo está sempre na espreita e pronto para ir aonde existe a possibilidade de altos lucros!

O público em geral e seus respectivos Fundos de Investimento não sabem que existe cerca de cinqüenta vezes mais dólares especulativos do que dólares no mercado real, e que essa importância em dólares pode aumentar cada vez mais!

O público em geral e seus respectivos Fundos de Investimento às vezes, ganham, e esta constatação os mantêm na doce perseguição de lucros fáceis!

Enfim, o público em geral e seus respectivos Fundos de Investimento não sabem em que jogatina se meteram, pois o resultado final é que todos os lucros vão para as Organizações Multinacionais Financeiras, que controlam a oferta e a demanda nas Bolsas, tanto na compra como na venda de ações e derivativos.

Compreendido o jogo, o leitor pode então perceber a forma pela qual a Organização Multinacional Financeira Líder também lucrará se apostar que o Índice Dow Jones, noutra data, irá baixar... evidentemente não utilizando seu capital disponível de US$ 5 ou mais bilhões...

O sexto personagem

Na realidade não são somente cinco os personagens. Temos ainda os Bancos Centrais, pois derivativos não são jogados apenas com ações e índices, mas também com juros e cotação de moedas internacionais. Junto ao público em geral e seus respectivos Fundos de Investimento, estarão sempre participando neste jogo os países ditos "em desenvolvimento".

Esta jogatina ilegal desenfreada irá continuar? é a pergunta que todo o analista consciencioso faz!

O limite da jogatina

Estamos, na realidade, diante de um quadro assustador.

As fusões e fusões de multinacionais que hoje ocorrem, geram, acima de tudo, oligopólios e desemprego.

A ausência de investimentos produtivos gera também desemprego. E desemprego só pode gerar uma coisa: mais desemprego (e também demanda decrescente).
Este processo tem um limite e este limite saltará aos olhos do público em geral e seus respectivos Fundos de Investimento: quando houver baixa geral dos lucros de todas as empresas, levando-os a desistir de manter suas carteiras acionárias atualmente valorizadas ao extremo.

Quando o público em geral e seus respectivos Fundos de Investimento desistirem de manter suas carteiras acionárias elevadas ao extremo, (e parece-nos que estão próximos a isto), será o sinal para o início de uma queda violenta das Bolsas de Valores; queda esta que, pelos valores envolvidos, nenhuma Organização Multinacional Financeira Líder conseguirá brecar.

O fim do jogo

Os gráficos demonstrativos de cotação dos diversos valores envolvidos não serão mais as linhas quebradas que indicam as grandes oscilações atuais, o que permite o jogo de derivativos: ou serão uma linha descendente (ações ou índice de ações) ou ascendente (juros). Com linhas simplesmente descendentes ou ascendentes, o mercado de derivativos terá seu fim, com a maior crise bancária da História, pois muitos ganharão aquilo que outros estarão impossibilitados de pagar.

O desfecho final e uma possível solução

Deste caos geral, na procura de uma solução, talvez se adote uma Nova Economia Política com sua moeda de desenvolvimento neutra...