Ciro de Oliveira Machado

Referência:

O mundo poupa e os EUA gastam; mas por quanto tempo ainda?

Zanny Minton Beddoes The Economist

 

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Ben Bernanke, ex-professor de Princeton, conselheiro do FED – Federal Reserve fez uma palestra a um grupo de economistas em Richmond (afirmando:)

 

“Juros mais baixos significam excessiva poupança em relação ao montante que as pessoas querem investir e o crescente desequilíbrio entre os EUA e o resto do mundo sugere que a discrepância está concentrada fora dos EUA. Uma queda na taxa mundial de poupança poderia mascarar acentuadas diferenças regionais. E, mesmo com a queda na taxa de poupança, poderia haver uma inundação de poupança se a demanda para uso dessa poupança, ou seja, a demanda por investimentos, estivesse caindo mais rapidamente.”

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(Zanny Bedoes assim termina seu artigo:)

Levar gradualmente os padrões de poupança e investimento a um equilíbrio mais saudável exigirá um pensamento novo, tanto dos EUA como em outros países. As autoridades econômico-monetárias têm maior responsabilidade pelas mudanças, e nos desequilíbrios mundiais, do que admite Bernanke.  

 

 

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23/10/2005

Nossa Opinião

 

As análises das ocorrências econômicas do mundo “globalizado” de hoje tem suas origens na História econômica do mundo capitalista norte americano.

Dispomos, para isto, de “A Nova Economia Política”, obra em que investimos décadas de nosso esforço analítico.

Assim, não temos a menor dúvida ao afirmar que as ocorrências desequilibradoras de hoje, início do século XXI, estão relacionadas aos fatores que deram origem à Grande Depressão de 1929 e que o elemento que relaciona e junta esses ocorrências é o dólar, apenas nacional em 1929 e hoje, (ainda) internacional.

 

No período de 1829 a 1929 os EUA estiveram na vanguarda do mundo, com sua tecnologia, sua produção e seu desenvolvimento econômico e suas crises monetárias. Formou-se nos EUA, paraíso da democracia, uma elite de homens empreendedores que realmente utilizaram tudo o que de bom lá havia, como ouro, terras agrícolas, petróleo, minérios, e, principalmente, facilidades bancárias. Um pouco de moeda sonante e já estava criado um banco. Foi lá que os primeiros, depois, muitos bancos nasceram e depois, entraram em crise e morreram, deixando atrás de si progresso e desenvolvimento para a nação como um todo.

 

No início da década de 20, data em que os EUA iniciam sua “golden age”, todas as empresas eram iguais, porém “mais iguais”, mercê dos embates empresariais e da “inteligência” de seus homens, eram cerca de 250 grandes organizações bancárias e não bancárias, que formavam os trustes, monopólios e oligopólios, que dominavam, por meio de diretorias interligadas, todas as finanças e a produção dos EUA.

 

Foi nesta época que se impôs a medida desequilibradora básica do capitalismo norte-americano: na ânsia de ganhar mais, estas organizações de “mais iguais”, aumentaram os preços de seus produtos de forma a ultrapassar a renda disponível dos consumidores e fizeram com que os bancos interligados financiassem as operações de venda pela diferença. Os lucros majorados vieram para as 250 organizações de “mais iguais” aumentando seu poder financeiro, enquanto os fugazes bancos ficaram com as prestações pelos créditos concedidos. Essas operações, por anos seguidos, fizeram com que os consumidores se endividassem bastante, parassem de pagar aos bancos, sobrevindo uma grande crise de demanda dando origem à Grande Depressão. Foi a crise de demanda que deu origem à queda das bolsas de valores, até então supervalorizadas.

 

Os EUA permaneceram na Grande Depressão, sem tocar nas empresas “mais iguais”, ou seja, sem tocar no próprio cerne do capitalismo norte-americano, até o início da II Guerra Mundial, isto porque foram tais os gastos do Governo com armamentos, manutenção das tropas, ajuda aos aliados e subsídios aos países beligerantes, que as empresas americanas (as únicas então produtivas) puderam produzir livremente, gastar livremente, sendo que a diferença entre o produto e o gasto foi colocada em poupanças e títulos do Governo Americano, tido e havido como uma das mais seguras aplicações disponíveis, porque desde então ficara estabelecido que os Governos, principalmente o Norte Americano, não entram em falência. Os bancos foram substituídos pelo Governo e seus déficits públicos...

 

Ao término da 2a. Grande Guerra o grande medo era voltar à depressão. Mas já em 12 de setembro de 1939, menos de duas semanas após os Estados Unidos terem entrado na II Grande Guerra, alguns cidadãos, representantes das 250 corporações “mais iguais”, deram atenção e impulso ao Conselho de Relações Exteriores, órgão estatal que cuidava das relações internacionais Norte Americanas, formando um instrumento de pressão cujo único objetivo era adaptar os atos do Governo Norte Americano a seus próprios interesses. Mais de 700 memorandos foram enviados ao Presidente Roosevelt.

 

Suas recomendações eram a de uma economia mundial aberta (mas aberta aos próprios Estados Unidos) e a abertura de instituições financeiras por todo o mundo para facilitar programas de investimentos de capitais para os desenvolvimentos de regiões destruídas ou atrasadas, ou, por outras palavras, agora certos de que apenas os Estados Unidos não seriam mercado suficiente para a sua produção, queriam que também o fosse o mundo, e o mundo estava aí a sua disposição para dar continuidade à mesma medida desequilibradora básica do capitalismo norte-americano...

 

Para atingir esse objetivo tinham que, em primeiro lugar, controlar econômica e financeiramente o mundo. Para tanto, com todo o poder militar e político de quem havia vencido a II Grande Guerra, estabeleceram as regras de Bretton Woods: o dólar tornou-se moeda internacional, inicialmente atrelado ao ouro e após 1971, não atrelado a mais nada.

 

Tornar-se moeda internacional significava inicialmente disporem os Estados participantes do comércio internacional de estoques de dólares para tornarem coincidentes ou consentâneas as importações e as exportações, ou seja, ao preparar-se um país para exportar um milhão de dólares, esse país deveria também estar importando esse mesmo milhão daí a necessidade de dispor de um milhão de dólares para suas importações... Seria o mesmo capital de giro, agora em termos nacionais, presente nas finanças das empresas importadoras.

 

Como os países obtiveram tais capitais de giro?

 

No início, pelos déficits em serviços, na balança de pagamentos dos Estados Unidos.

 

Primeiro, através de subsídios fornecidos pelo Governo dos Estados Unidos aos Governos de outras nações, de empréstimos dos bancos dos Estados Unidos a bancos e entidades de outras nações e dos capitais exportados usados na defesa do mundo livre contra a ameaça comunista. Os Estados Unidos conseguiram com essas operações inúmeras vantagens políticas junto ao mundo.

 

Em segundo lugar, em escala maior, através dos investimentos realizados em todo o mundo pelos Estados Unidos, como forma de abrir a economia de outras nações atrasadas ou destruídas para a economia norte-americana.

Através dessas operações os Estados Unidos afastaram de vez a ameaça de recessões pois inundaram o mundo com dólares para as importações dos produtos americanos, ao mesmo tempo em que obtinham no mundo a oportunidade e a propriedade dos melhores negócios.

 

Capitais em dólar, uma massa de papel verde sem qualquer custo inicial, foram utilizados para dominar economicamente o mundo...

Notem que dissemos ‘’sem custo inicial’’, porque em economia, tudo o que é realizado é registrado nas contabilidades nacionais...

 

Os Estados Unidos chegaram a ser bastante liberais pois emprestaram muito para países que não tinham a menor condição de pagar os empréstimos...

Mantiveram um déficit de serviços em sua balança de pagamentos até 1972. A partir de 1972, tornaram-se deficitários não apenas em serviços, mas também na balança comercial... Em 2004, o déficit comercial dos EUA foi de 700 bilhões de dólares, muito mais do que o Brasil angariou ao longo de 500 anos de história.

Até 1971 o dólar estava ainda atrelado ao ouro, na base de US$ 35 por onça de ouro. Em fins da década de 60 a maior parte dos países já tinha seus capitais de giro em dólares. Alguns, como o Japão, Alemanha e França contavam com grandes excedentes...

Começaram as trocas de dólares por ouro.

Em 1944 os EUA tinham 68% das reservas mundiais de ouro. Em 1957 essas haviam passado para 61%. Entre 1948 e 1957 os déficits somados dos EUA chegaram a US$1,5 trilhões. Em 1960 os dólares no exterior ultrapassavam o valor das reservas dos EUA.  Em 1971 representavam apenas 25% das reservas mundiais, cerca de US$ 10 bilhões, mas os EUA deviam US$ 300 bilhões ao exterior. Os Estados Unidos haviam mais do que chegado ao limite.

 

Num segundo momento os países obtiveram tais capitais de giro com os eurodólares.    

O mercado de eurodólares iniciou-se com o capital de US$ 300 bilhões fora dos Estados Unidos e devidos pelos Estados Unidos ao mundo. Foram depositados fora dos Estados Unidos para justamente não estarem sob a tutela do Governo dos Estados Unidos.

Quais as características desse mercado?

Era pouco controlado pelo Governo dos Estados Unidos e pelos demais governos, tornando inviáveis a maior parte das políticas econômicas restritivas. Tinha grande mobilidade no curto prazo de forma a aproveitar oportunidades de ganhos por diferenças de juros, revalorizações e colocações favoráveis, nem sempre especulativas. Era importante no financiamento de déficits governamentais, em investimentos a curto prazo e no comércio internacional. Sempre que os Estados Unidos propunham restrições monetárias, o mercado de eurodólares passava a ser um importante fornecedor de liquidez internacional, fornecendo o capital de giro para o comércio mundial.

Fundamentalmente, o mercado dos eurodólares não tem limites para seu desenvolvimento uma vez que não está sujeito a nenhum controle governamental, principalmente através dos depósitos compulsórios. Sabemos que o poder que o banco tem de multiplicar a moeda está relacionado ao inverso da taxa de depósito compulsório. O mercado de eurodólares poderia multiplicar as moedas infinitamente, e bem que o faz até determinado limite julgado oportuno pelos seus administradores. Em 1986, apenas no mercado de Londres, havia operações nos mercados físico, financeiro e de derivativos no valor de US$ 75 trilhões, volume que chegava a ser vinte e cinco vezes superior ao comércio internacional de bens e serviços.

 

1971. Ano em que o mundo foi surpreendido (?) por uma das mais dramáticas medidas de caráter econômico: Nixon decretou a inconversibilidade do dólar, retirando da moeda internacional seu lastro em ouro. Pânico junto ao mercado internacional. Desvalorizações do dólar em relação às principais moedas do mundo... Cerca de 500%.

Na luta pelo comércio internacional, as demais moedas também se desvalorizaram, porém menos, em relação a uma cesta de commodities...

Mas o dólar, pouco a pouco, ganhou a batalha que se formava e continuou como moeda internacional.

Os países do mundo, depois de anos e anos de batalha, já haviam conquistado seus capitais de giro em dólares e foram convencidos pelo poder político e militar dos Estados Unidos a manter os dólares como moeda internacional sem nem sequer imaginarem que poderiam adotar uma moeda internacional neutra de desenvolvimento.

As operações internacionais tiveram prosseguimento, mas o mundo nunca mais foi o mesmo.

A modalidade de câmbio flutuante fez também com que a economia começasse a flutuar. Recomeçou a especulação, de uma forma nunca vista.

Não bastassem o tratamento de choque e a desvalorização unilateralmente declarada por Nixon aos dólares que inundaram os cofres dos países europeus e do Japão, tivemos, a partir de 1973, a crise do petróleo.

Os produtores mundiais do petróleo foram duramente atingidos pela inflação antes da crise. O preço do petróleo permaneceu a US$ 4/barril, de 1952 a 1973. Com as inflações em dólar dos finais de 1971 e 1972, a OPEP, em 1973, quadruplicou o preço. Com a escalada, em 1982, o preço do barril atingiu a US$ 39. Hoje o preço do barril está no entorno de US$ 70.

Os demais preços de commodities também aumentaram. Ao final da década de 80 os preços haviam aumentado, no geral, cerca de 400%; um aumento maior, porém, para o petróleo. A OPEP viu-se inundada de dólares, muitos deles vindos do primeiro mundo, com os Estados Unidos na vanguarda.

Para a compra do petróleo, as corporações dos Estados Unidos passaram a utilizar dólares emitidos pelo Governo, sem qualquer custo, pagando juros bastante baixos. A maior parte desses dólares era depositada nos bancos internacionais e foram chamados desde então de petrodólares. Ou então voltavam os Estados Unidos na forma de compra de títulos do tesouro americano. Grandes fortunas foram formadas e gastas parcialmente de forma suntuosa entre o diminuto número dos produtores. Muitos dos dólares ganhos ainda estão emprestados aos bancos multinacionais...

 

Foi esta a década de grandes empréstimos dos sindicatos dos bancos internacionais a países não produtores de petróleo e sem recursos para a compra, muitas vezes países ditatoriais ou praticando um simulacro de democracia. Os bancos internacionais reciclaram e multiplicaram essa imensa quantidade de petrodólares. Os países de baixa renda aumentaram seus empréstimos durante a década de 70 de US$ 21 bilhões para US$ 110 bilhões. Os países de média renda, nesta mesma década, aumentaram seus empréstimos de US$ 40 bilhões para US$ 317 bilhões.

Brasil, Argentina, México, Nigéria e outros países em desenvolvimento tomaram emprestados centenas de bilhões desses petrodólares reciclados. Tomaram emprestados e não pagaram. Mais de US$ 500 bilhões foram de maus empréstimos. Nunca os bancos viram nenhum retorno do principal, apenas tiveram de conceder mais empréstimos para o pagamento dos juros dessas dívidas, caso contrário o sistema financeiro mundial entraria em falência.

No início dos anos 80 deu-se o que poderíamos chamar crise da dívida referente aos empréstimos internacionais concedidos na década de 70.

Foi nesta época também que as grandes corporações transnacionais dos “mais iguais” iniciaram a conquista definitiva de seu espaço no mundo econômico.

Com a enorme quantidade de empréstimos vencidos (e a vencer) não sendo paga, os bancos internacionais chamaram o FMI e o Banco Mundial para a resolução do problema. Os bancos internacionais são os tentáculos financeiros das grandes corporações e o FMI e o Banco Mundial são seus fieis representantes, embora isso não seja jamais declarado.

Missões do FMI e do Banco Mundial começaram a ser enviadas a todos os países com dívidas atrasadas e sem quaisquer perspectivas de futuros pagamentos.

Eles recomendavam, ou melhor, exigiam, que para conceder empréstimos de salvação a esses países, ou melhor, ainda, para dar a esses países um aval de boa política econômica, que os países endividados fizessem um ‘’ajuste estrutural’’ ou seja, primeiro, que abrissem o país ao livre trânsito de mercadorias e dinheiro de qualquer parte do mundo (ou seja, de mercadorias de origem norte-americanas e dólares norte-americanos); segundo, que canalizassem uma maior parte dos recursos e da atividade produtiva para o pagamento das dívidas (em dólares norte-americanos), o que era conseguido principalmente pela desvalorização cambial; terceiro, que esses países oferecessem incentivos para atrair investidores estrangeiros e seus respectivos capitais em dólares norte-americanos. Este ‘’ajuste estrutural’’ seria potencializado (diziam os agentes do FMI e Banco Mundial) se os países diminuíssem o salário real, aumentassem a produtividade mesmo à custa de um desemprego maior, enfraquecesse os sindicatos, retraíssem a classe média, enfim, apenas se preocupassem com o pagamento das dívidas internacionais vencidas e a vencer.

 

A partir desses ‘’ajustes estruturais’’ abriram-se as portas dos países endividados às corporações internacionais, eliminaram-se as barreiras protecionistas às importações vindas destas corporações de qualquer parte do mundo, integraram-se mais estreitamente as economias das grandes corporações e a dos países nos quais elas tinham interesses econômicos e facilitou-se o ingresso (e mesmo a retirada) de capitais internacionais destes países.

Capitais em dólar, tanto quanto fosse o necessário, estavam presentes nestas operações, que primavam pelo absurdo, pois não houve um só banco que sequer pensasse em ter seus empréstimos de volta... Novamente centenas de bilhões de dólares em capitais gerados pela ‘’multiplicação’’, sem qualquer tipo de lastro, capitais sem custo, ou seja, falsos capitais, fornecidos pelos bancos internacionais...  Dominar economicamente o mundo, que era o grande objetivo das corporações, estava se concretizando a custa de um enorme desequilíbrio monetário.

Isso quanto aos países endividados.

 

Nos Estados Unidos as transformações estavam sendo maiores ainda porque Governos Republicanos aliaram-se mais e mais com as corporações internacionais de origem norte-americana na aprovação irrestrita das exigências do FMI e do Banco Mundial em relação aos países devedores. Acima de tudo tratava-se da salvação do capitalismo liberal, com o dólar como moeda internacional.

Fiéis aos dogmas Republicanos, abandonaram-se e revogaram-se quaisquer vestígios de um contrato social; reduziram-se os impostos sobre a riqueza e sobre a renda; eliminaram-se as restrições contra as fusões e incorporações impeditivas de monopólios; deixou-se ir à falência o setor de poupança e hipotecário, deixando aos contribuintes uma conta de US$ 500 bilhões; diminuíram-se em cerca de cinqüenta por cento as verbas federais para os estados e governos locais; enfraqueceram-se os padrões de obrigações trabalhistas e ambientais; reduziram-se os salários internos; quebrou-se o poder dos sindicatos; aumentou-se a taxa de desemprego; profissionais tiveram que aceitar trabalhos não condizentes com suas profissões; foram deslocadas para o exterior as operações de manufatura, mesmo com as mais recentes tecnologias, devido aos baixíssimos salários lá pagos... O próprio mercado de eurodólares passou a fazer parte integrante do sistema.

A produção, por exemplo, poderia muito bem ser feita no exterior, no México ou nas Filipinas, onde não mais que 5 a 10 por cento do preço do produto somos custo de produção. Em 1990, um terço das exportações de US$ 3,3 trilhões era de produtos exportados e importados por uma única empresa. Esta foi, e continua sendo, a mais indigna exteriorização de custos praticada pelas corporações dos Estados Unidos. É referente à mão de obra de produção de cerca de um terço do consumido no país e muito do consumido pelo mundo.

Globalização implica em downsizing das empresas corporativas. As corporações principais diminuem cada vez mais, porém são as responsáveis pelo marketing e pela venda dos produtos fabricados por outras empresas caudatárias (das quais possuem o controle acionário). Tais produtos são feitos no exterior, pagando-se à mão de obra apenas uma fração do que seria pago se a produção fosse realizada nos Estados Unidos. No exterior, todas as matérias primas locais estão à disposição das corporações. Não existem preocupações quanto aos resíduos poluentes do solo, do ar e da água. Lá, é bastante possível que a produção seja executada nos melhores terrenos fornecidos graciosamente às corporações, com isenção de impostos ou mesmo fornecendo subsídios.

Esta globalização é apresentada pela mídia (cujos veículos pertencem às próprias corporações) como um estímulo à competição.

A globalização racionaliza a mídia, promove um aumento da eficiência econômica, cria empregos, diminui o preço ao consumidor, estimula o crescimento econômico e é geralmente benéfica a todos...

O futuro econômico dos Estados Unidos (e do mundo) passou a estar nas mãos das corporações dos “mais iguais”. Passou a ser negado aos Governos qualquer papel no planejamento econômico.

 

Na seqüência de eventos que convergem para esta globalização, junto aos lucros das corporações multinacionais acima do normal, os déficits governamentais dos Estados Unidos atingiam e atingem a estratosfera. Há também uma estonteante seqüência de déficits na balança de pagamentos, pois a América do Norte ainda é a única emissora de moeda internacional do planeta. Para este problema não existe qualquer custo ‘’imediato’’. Tudo isso é pago com os dólares ‘’sem custo’’ emitidos pelo Governo, e retidos, após sua compra ou realização (porque para cada dólar emitido, os Estados Unidos exerceram de fato, sua ‘’seigniorage’’), ou nos caixas de um dos bancos centrais como reservas para o prosseguimento do comércio mundial, ou emprestados aos Estados Unidos e a outros países do mundo, ou em compras de ativos reais nos Estados Unidos (realizadas principalmente pelo Japão), ou depositados e multiplicados pelos bancos internacionais e espalhados como empréstimos pelo mundo, ou como fichas de jogo no mercado de derivativos, este sim o depositário máximo das finanças internacionais. A revista Veja calculou em 2000, quase US$ 200 trilhões, contra um PIB dos USA de apenas US$ 10 trilhões.

 

O que é o mercado de derivativos?

A partir de 1971, ano em que as moedas do mundo perderam seu denominador comum em termos do ouro, o mercado econômico mundial tornou-se também um mercado de riscos, ou seja, um mercado de apostas, para mais ou para menos, sobre as variações das taxas de câmbio, variação das ações ou índices das ações, variação das taxas de juros, variação do preço das commodities, dos imóveis etc. Para este mercado passaram a vir as poupanças dos agentes e empresas de todo o mundo.

 

São todos investimentos especulativos de curtíssimo prazo: compra, venda, futuros, opções, arbitragens, com moedas; o mesmo com ações, taxas de juros, papéis de governo, índice de ações etc.

É um mercado puramente monetário, sem qualquer ligação com o mercado de bens e serviços reais.

Notemos que neste jogo, nenhuma relação com a economia real existe, todo o esquema é financeiro. Nenhuma ação foi comprada ou vendida.

 

Estes mercados e a prática deste jogo econômico contribuem em muito para explicar as origens do desemprego mundial atual.

 

Os cacifes para este jogo são em grande parte formados pelas importâncias que deveriam ser empregadas nos investimentos normais produtivos dos sistemas econômicos. O mercado atual não aceita nenhum tipo normal de investimentos a não ser investimentos substitutos, aqueles que irão promover a dispensa de mais mão de obra, tipo robôs, sistemas informáticos, etc.

 

Devemos voltar a lembrar que o capitalismo liberal é um capitalismo de grandes concentrações de renda, um capitalismo que produz mais do que o mercado pode consumir devido aos monopólios e oligopólios sempre crescentes. Assim foi durante a Grande Depressão, com os Estados Unidos ainda não globalizados. E assim será agora, após a inclusão dos últimos mercados (China e ex-países comunistas?) no processo da globalização mundial.

 

Todas essas operações são feitas numa pálida reafirmação do dólar como moeda internacional, sem nenhum cálculo de viabilidade econômica e sem exigir investimentos que possam produzir mercadorias que diminuam o desemprego, já gravíssimo. E desemprego só conduz a mais desemprego.

 

 

Estamos hoje diante de gravíssimos problemas sócio-político-econômicos mundiais. Para problemas gravíssimos temos necessariamente causas gravíssimas.

 

A existência do dólar como moeda nacional-internacional explica em muito essas causas gravíssimas.

 

Estamos agora às portas de uma depressão que chamamos de máxima, muito mais grave do que a grande depressão de 1929, por ter como vítimas não as populações de determinados países, mas sim a população do mundo.

 

Os empréstimos aos consumidores ainda empregados de todo o mundo para a aquisição da casa própria, da casa de campo, da casa da praia, dos carros, dos equipamentos eletrônicos, dos demais itens de sua cesta de consumo e dos empréstimos para refinanciar estes mesmos ítens, muito acima da capacidade real de pagamento desses empréstimos, ao lado de 50% da população mundial quase não tendo o que comer, já indicam que estamos próximos à depressão, ou mesmo dentro dela.

 

A ausência mundial de investimentos que aumentem a produção, mesmo com parte das empresas monopolistas e oligopolistas tendo lucros, responsável por um desemprego crescente, é também sinal de depressão.

 

A valorização artificial das bolsas de valores, muito em função da ausência de outros investimentos rentáveis, também é sinal de depressão. Não estamos falando da manipulação dos índices dos mercados mobiliários, feita pelos bancos multinacionais controladores das principais fontes de financiamentos, que atuam no mercado de derivativos, conforme diversas “Opiniões” já publicadas.

 

Esta depressão máxima irá se manifestar da mesma forma como se manifestou a grande depressão de 1929: em função da crise de demanda mundial, os mercados mobiliários reais (bolsas de ações) entrarão em queda livre, uma vez que os consumidores, por razões de caixa, estarão absolutamente impossibilitados de continuarem a ser financiados.

Pelo fato de não haver mais nenhum tipo de risco, pois os mercados mobiliários reais estarão em queda, quantidades inimagináveis de dólares hoje no mercado de derivativos, procurarão algo em que investir. É só para o mercado norte-americano que eles irão, pois dólar é uma moeda emitida pelos EUA e sua desvalorização diante das outras moedas não permitirá seu câmbio. Uma terrível inflação ocorrerá muito acima da inflação brasileira dos últimos tempos do Governo Sarney. E o dólar, finalmente, deixará de ser uma moeda internacional, sendo substituída, assim esperamos, por outra moeda com as características da moeda neutra internacional.

 

Vamos agora tecer rápidos comentários sobre o texto “O mundo poupa e os EUA gastam; mas por quanto tempo ainda?”.

 

A principal afirmação de Bem Bernanke citado no texto é: “Juros mais baixos significam excessiva poupança em relação ao montante que as pessoas querem investir e o crescente desequilíbrio entre os EUA e o resto do mundo sugere que a discrepância está concentrada fora dos EUA. Uma queda na taxa mundial de poupança poderia mascarar acentuadas diferenças regionais. E, mesmo com a queda na taxa de poupança, poderia haver uma inundação de poupança se a demanda para uso dessa poupança, ou seja, a demanda por investimentos, estivesse caindo mais rapidamente”, ou, em outras palavras, o que nasce primeiro, a galinha ou o ovo?

 

Em nossa “Opinião”, a responsabilidade do déficit em conta corrente norte-americano é única e exclusivamente dos EUA, que não apenas utiliza-se da força de trabalho do resto do mundo em suas importações (com dólares inflacionários) sem lágrimas, nos dizeres de De Gaulle, como também, se coloca a disposição do mundo para guardar sua poupança em títulos do tesouro americano.

 

Faz parte da História que as aquisições internas e externas do Governo e externas das empresas dos EUA, nunca foram pautadas pelo ingresso de poupança feita por outros países. O ingresso de poupança transformado em títulos do tesouro vem se dando, porém ele não estabelece os limites do déficit da balança comercial dos EUA. Os EUA simplesmente emitiram, emitem e emitirão dólares inflacionários, até que seus parceiros comerciais passem a não mais aceita-los.

 

Restam as palavras finais de Zanny Beddoes:

 

“Levar gradualmente os padrões de poupança e investimento a um equilíbrio mais saudável exigirá um pensamento novo, tanto dos EUA como em outros países. As autoridades econômico-monetárias têm maior responsabilidade pelas mudanças, e nos desequilíbrios mundiais, do que admite Bernanke.”

 

A Nova Economia Política poderá, talvez, fornecer um pensamento novo, porém será incapaz de brecar a Depressão Máxima que se aproxima a passos largos.

 

 



Ciro de Oliveira Machado