Ciro de Oliveira Machado

Referência:

Greenspan muda o tom e alerta sobre déficit dos EUA
Alan Greenspan, Gazeta Mercantil, 20 de janeiro de 2004, São Paulo, SP.

“A persistência do déficit dos Estados Unidos poderá representar um risco para a economia americana, que ainda vem mantendo um bom desempenho”. O inusitado alerta foi feito por Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), durante reunião de ministros das Finanças do G-20, na Alemanha. Até agora, ele dizia que os déficits (além do orçamentário, o comercial) não representavam um grande problema, e essa mudança de discurso fez as Bolsas americanas caírem e o dólar recuar ainda mais em relação ao euro e ao iene.

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Quanto à queda do dólar em relação às moedas fortes, o presidente do Fed foi evasivo: “Parece razoável que, dado o tamanho do déficit em conta corrente dos Estados Unidos (de US$166,2 bilhões no segundo trimestre, o dado mais recente disponível), possa diminuir, em certo momento, o interesse pelo dólar. Mas quando equilibrar a moeda (americana), por que meios e até que nível de cotação? Infelizmente, nenhuma resposta a estas perguntas é convincente. Prever uma taxa de câmbio tem a mesma probabilidade de acerto de um cara-ou-coroa”.


08/02/2005

Nossa Opinião

O Bankor de Keynes (neutralizado[1]) frente ao depauperado dólar

O  dólar está iniciando sua crise, ou seja, há necessidade de mais dólares para comprar, digamos, reais ou moedas ditas fortes, yens e euros.

O mundo dos países superavitários, incluindo o Japão e a Euro-Comunidade, não se sente confortável. Eles possuem trilhões e trilhões de dólares em seu superávit acumulado e não se conformam com a perda relativa de valor, dia após dia.

 Os legítimos proprietários de dólares, ou obtidos no comércio exterior ou como moeda pela venda de terras ou empresas, estão procurando trocar esses dólares por outra moeda que apresente mais estabilidade. No caso, as primeiras opções seriam yens e euros. Mas não é tão simples fazer este câmbio de dólares para yens ou euros. Primeiro, quem ficaria com os dólares? O Japão e a Euro-comunidade? Segundo, câmbios com tais quantidades de moeda não teriam yens e euros suficientes pois tais moedas são absolutamente controladas. Terceiro, tais câmbios, se fossem possíveis, levariam o dólar a seu real valor, ou seja, uma pequena fração do que (teoricamente) vale hoje. Quarto, o problema fundamental do comércio exterior: os Estados Unidos são os campeões de compras do mundo e com o dólar assim desvalorizado desapareceria este mercado para os países superavitários.

E os Estados Unidos, com suas guerras de conquista e gastos estapafúrdios, continuam com colossais déficits , na casa, hoje, do trilhão de dólares, tanto na balança comercial, como no déficit público, provocando enchentes de dólares em todos os países do mundo. Enchentes que os governos não param de enxugar, quer  para manter na faixa atual o preço do dólar no interesse dos países superavitários, quer para o pagamento de dívidas antigas e modernas nos países endividados. Tais dólares não provocam inflação, como a da moeda brasileira nos tempos do Sarney, pois o dólar é uma moeda internacional e todos, superavitários e endividados, zelam por sua manutenção...

Esta só é uma parte do problema. Os bancos multinacionais, incluindo aí o FMI e o Banco Mundial, que multiplicam e multiplicaram em muito os dólares emitidos pelos EUA, são os depositários naturais da maior parte dos dólares existentes. Por serem multinacionais e pelo fato das diretorias das multinacionais serem interligadas, eles atuam primeiro, em empréstimos para países sem condição para honrar seus compromissos, e segundo,  no financiamento dos investimentos e capital de giro das multinacionais, e, principalmente, no financiamento direto aos clientes das multinacionais, com juros baixíssimos, na casa, hoje, de 4 a 5% a.a.

Sem eles a economia não andaria pois raros seriam os países ainda compradores  e raras as multinacionais que disporiam de capitais próprios; as vendas também não se realizariam, pois a maior parte dos consumidores já está absolutamente endividada, sendo, tais financiamentos operações de refinanciamento, com sobras para algumas outras aquisições. São eles maus emprestadores e a única decorrência desta política será a falência do banco quando ingressarmos na Depressão Máxima.

Quão distantes estamos do funcionamento da Nova Economia Política e sua moeda neutra de desenvolvimento!

As empresas multinacionais que hoje dominam o planeta são oligopolistas ou monopolistas, cujo único objetivo é manutenção do lucro, mesmo a custa de dependerem de um banco, mesmo a custa de um desemprego crescente, pois lucros mais custos são sempre superiores à renda familiar.

E finalmente, para fechar o circuito, utilizando todos os dólares disponíveis e mais dólares, quando necessário, temos o jogo dos derivativos e do mercado futuro, envolvendo, segundo alguns analistas econômicos, cerca de US$ 200 trilhões. É através deste jogo que os banqueiros capitalistas multinacionais racionalizam que seus capitais devem continuar a ser empregados de forma a ter altos rendimentos, positivos ou negativos, por apostas feitas no desempenho das bolsas de ações, de mercadorias, de moedas, de juros Tc, do mundo.  Rendimentos positivos, ganham uns; rendimentos negativos, ganham outros. São apostas na evolução positiva ou negativas de papéis mobiliários, característicos de uma época de grandes oscilações. Não havendo qualquer outro investimento, como não há, que joguem nos derivativos e futuros!

É também com tais capitais que os banqueiros capitalistas multinacionais controlam as bolsas do mundo: compram para que elas subam, deixam de comprar para que elas desçam. Não é impossível imaginar que, por isso mesmo, todas as bolsas do mundo só apresentem resultados que os agradem...

 

Rumo à Depressão Máxima

Esta é ainda a peça sem final definido em que vive o mundo, da qual o ator principal, o vilão assumido, é os EUA, contra uma plêiade de países, ou exportadores do néctar de suas produções, ou sede de multinacionais de origem norte-americana, com capitais de giro e investimentos em dólares absolutamente livres e com juros baratíssimos[2], ou  países fornecedores de suas melhores terras ou de suas melhores empresas, que passam a fazer parte do setor multinacional,[3] todos eles sem um projeto definido de ação contra o vilão, ou até mesmo, sem saber que o vilão existe.

Mais ainda está por vir, fazendo com o que hoje achamos catastrófico, um dia nos pareça férias no paraíso, 

Vamos supor que a classe trabalhadora ainda empregada do mundo, com baixos salários e endividada, não teria mais poder de compra adicional. (Esta seria uma simples previsão ou poderíamos considerá-la quase uma certeza?)

Todos os investidores continuariam cada vez mais a jogar nos mercados financeiros, sejam os reais, de futuros ou de opções, receptáculos de todo o poder de compra ainda existente. Não haveria mais nenhum tipo de mercado para se investir.

Os mercados financeiros reais, devido á baixa das vendas e diminuição ou mesmo anulação dos lucros das empresas, cairiam abruptamente.

(Isto é o que está acontecendo hoje no Japão. As modelares indústrias japonesas estão perdendo seus clientes internacionais e, consequentemente, gerando mais e mais desempregados. Elas não sabem o que fazer... O FMI teria uma ‘’solução’’ para o problema ao propor um ‘’ajustamento estrutural’’. Na prática, isto corresponderia a uma abertura do mercado japonês às indústrias de origem norte-americana com seus capitais em dólares, estendendo este drama, cujo resultado estamos adiantando.

As corporações se sentiriam empobrecidas. Passaria a inexistir o risco, na medida em que todos os mercados cairiam.  Os mercados de futuros e de opções seriam arruinados. Mas os Estados Unidos ainda teriam os juros sobre os dólares como último recurso . Os juros seriam majorados. Mas juros majorados para quê, se todos os mercados estariam caindo? Qual seria o real poder de compra da imensa quantidade de dólares existente no mundo?

Dentro deste quadro final caótico poderíamos observar a terrível inflação nos Estados Unidos devido ao retorno dos dólares no exterior e dos empréstimos em dólares emprestados ao seu Governo quando de seus vencimentos, à cata de qualquer tipo de mercadorias pois o dólar é apenas poder de compra das mercadorias fabricadas nos EUA.

No prosseguimento da crise, os bancos nacionais e internacionais deixariam primeiro de receber de volta os empréstimos especulativos; segundo, os empréstimos para os governos endividados; terceiro, os empréstimos das empresas; quarto, os empréstimos para pessoas físicas. Nem mesmo os juros de todos esses empréstimos seriam recebidos.

Pelo fato de que haveria tanta perda no mercado mobiliário, as empresas deixariam absolutamente de investir, o que levaria o multiplicador negativo de investimento a gerar um desemprego recorde  (que já chegou, em 1933,  a 25% da força de trabalho).

Tendo em vista a terrível situação econômica, poderíamos admitir a quebra geral nos bancos internacionais, primeiro com seríssimos prejuízos aos Estados Unidos (lei de causa e efeito) e depois, com sérios prejuízos direcionados aos demais países, inclusive os países superavitários tipo Japão, a euro-comunidade Tc, e países árabes e não árabes exportadores de petróleo. Os países do Ex-Bloco Comunista, que ainda são capitalistas neófitos, aturdidos pela situação, estariam entre os mais prejudicados. Lembremo-nos que esses países dispõem de armamentos nucleares de potência igual a dos Estados Unidos.

Na esteira desta Depressão Máxima, com Rússia, Alemanha, Japão, Países Árabes e incontáveis outros, inapelavelmente contra os Estados Unidos, também aterrorizados pela inflação em curso, a que situação poderíamos chegar senão às grandes catástrofes?

É certo que tal previsão é bastante pessimista, mas haverá lugar para otimismo? Poderíamos imaginar qualquer solução para o problema do dólar? Seria o euro a moeda que o substituiria?

 

Uma nova moeda internacional

O euro não é um substituto válido para o dólar. A substituição do dólar pelo euro é um começar de novo: em vez de dólar, euro.

Imaginem o esforço do mundo para, com os dólares depreciados, formar novos capitais de giro, responsável pelo comércio internacional, em euros. Seria uma operação com vantagens não lícitas da euro-comunidade, que realizaria quaisquer importações a custa de euros recém impressos, sem qualquer lastro. O mundo não seria capaz de errar pela segunda vez.

Preferimos o bankor de Keynes, devidamente neutralizado.

Já é hora de estudarmos como será a passagem à era da moeda neutra de desenvolvimento da Nova Economia Política.

Está implícito que a moeda neutra nacional e internacional possui as características essenciais que sempre procuramos e que não achamos em nossas moedas reais: não têm custos exceto os administrativos, não altera preços relativos e pode passar desapercebida, confundindo-se com as mercadorias que são transacionadas com a sua intermediação.

O vetor de  taxas de juros de um sistema deverá colocar esse sistema  político-econômico em fase de crescimento e desenvolvimento auto-sustentado, situação absolutamente desejável em todos os sistemas atuais.

A taxa de juros de equilíbrio r será menor ou igual à menor Eficiência Marginal do Investimento - EMI do sistema, de forma a garantir a plenitude dos investimentos e o pleno emprego dos recursos materiais e humanos do sistema.   

A moeda fiduciária neutra nacional terá características político econômicas ímpares: será de custo zero e introduzir-se-á nos sistemas via setores que estejam aumentando sua produção (via investimentos com o aproveitamento da taxa de lucro própria ou empréstimos de outras empresas, na taxa de juros de equilíbrio r), na quantidade necessária e suficiente para promover este aumento, através de uma primeira taxa (prime rate) variável, com vistas, única e exclusivamente à garantir a continuidade do pleno emprego dos recursos materiais e humanos do sistema.

 

Uma política monetária neutra

Um sistema de livre produção e livre consumo, em que vigore uma política monetária neutra, trás em si todas as forças endógenas para evoluir até a condição de equilíbrio econômico estável.  

Uma política monetária neutra pressupõe um controle central emissor de moeda e regras determinadas para o seu ingresso e retirada do Sistema.

Essa política deverá prever a entrega de moeda adicional, nas quantidades de moeda necessárias e suficientes, a todos os setores que, tendo realizado investimentos com a utilização dos fundos de lucros próprios e emprestados de terceiros, estejam aptos a iniciar a produção de mercadorias adicionais em relação ao ciclo anterior.

Se o setor utilizou a quantidade Q de moeda para produzir o valor P de produção, irá utilizar (1+x)Q para produzir (1+x)P.

O setor irá receber a moeda adicional mediante o pagamento de uma primeira taxa anual, cujo montante de arrecadação será somado ao fundo de impostos arrecadados pelo sistema.

O nível desta primeira taxa irá depender do estado conjuntural do sistema. Num período de invenções e aperfeiçoamentos tecnológicos, em que é grande a demanda por moeda adicional, uma primeira taxa mais elevada viabilizará apenas os investimentos mais produtivos, ajustando os recursos materiais e humanos à demanda. Da mesma forma, se a economia apresentar baixo dinamismo, uma primeira taxa baixa poderá induzir novos investimentos e aumentar a produção.

Uma política monetária neutra pressupõe não apenas a criação de mais moeda, mas também sua retirada do Sistema quando os setores produtivos não conseguem produzir ou vender suas produções aos níveis programados.

Assim, se determinado setor tiver suas vendas efetivas diminuídas em x% de um período produtivo para outro, ao fim do período em que ocorre a diminuição da  venda, este setor deverá recolher à fonte emissora os x% de sua moeda, agora redundantes.

Uma política monetária neutra não poderá prescindir de um setor bancário privado, calculador de riscos, e que operaria na distribuição de moeda, sob a supervisão de um banco central, através da cobrança de uma taxa de spread.

Esse mesmo setor bancário também operaria na reciclagem dos fundos congelados de poder de compra, cobrando do tomador a taxa de juros r e pagando aos emprestadores a taxa r menos a taxa de spread. A esses setores, porém, ficaria vedado o empréstimo acima dos valores congelados de lucros e rendas, ou seja, o setor bancário não poderia gerar nova moeda como os bancos atualmente geram.

Dada nossa noção ampla de mercadoria, todos os setores produtores privados, de bens tangíveis e intangíveis, teriam acesso a mais moeda na medida do incremento de suas produções, bastando para isso, um controle das vendas, somado à uma planilha que determine o capital de giro em função das vendas, de cada setor.

Todas as pessoas físicas teriam que constituir uma empresa, ainda que trabalhassem isoladamente, para ter acesso aos setores emissores.

O governo, como recebedor de impostos e taxas, também não teria acesso aos setores emissores.

Uma política monetária neutra elimina todos os incentivos à retenção ociosa de moeda, pois a moeda retida por alguns agentes será devolvida por outros que não conseguirão realizar suas produções e que permanecerão com estoques invendáveis de mercadorias, equivalentes à moeda estocada pelos primeiros agentes. Quando a moeda ociosa voltar ao sistema, encontrará produtos estocados e não vendidos, quando então o reequilibrará.

Uma política monetária neutra deve prever um eficiente sistema de seguros à produção e à realização da produção. Antes de qualquer emissão monetária, a empresa a ser contemplada com mais moeda fará um seguro com empresas especializadas, públicas ou privadas, garantindo a realização e a venda da produção. No caso da não realização da venda dos produtos adicionais, esta empresa seguradora seria responsável pela devolução da moeda redundante ao órgão emissor.

Qualquer setor produtivo, atuando em um sistema em que opere uma política monetária neutra, terá todas as condições para exercer sua missão, ao tentar obter as mais altas taxas possíveis de retorno sobre o seu capital, com base nos recursos estratégicos que dispõe para fixar seus preços.

Como exemplo de comprovação dessa afirmação, a política monetária neutra não elimina um dos principais impulsionadores do sistema capitalista, quais sejam os lucros e rendas obtidos por meio do aperfeiçoamento tecnológico,  tanto no que diz respeito à produtividade da força de trabalho, como nas invenções,  tanto de novas mercadorias como de mercadorias de investimento necessárias à fabricação de novas mercadorias. Se um determinado setor da economia investir em equipamentos de alta produtividade para a produção de mercadorias tradicionais, ao obter, junto ao órgão emissor, moeda adicional correspondente ao incremento de produção, o fará referenciado pelo preços de vendas dos produtos, que são os correntes, e portanto não influenciáveis pelos seus mais baixos preços de produção, aumentando suas taxas de resultados. Até que ocorra a difusão da nova tecnologia, que implicará no rebaixamento dos preços dos produtos, esse setor será integralmente beneficiado pela introdução pioneira do avanço tecnológico.

Qualquer sistema em que o governo não tenha grandes dívidas internas junto aos demais agentes particulares, em que vigore uma moeda não neutra, poderá passar a adotar um política monetária neutra, bastando, tão somente que passe a criar moeda segundo os critérios aqui expostos. O resultado primeiro da política monetária neutra seria um rebaixamento sem precedentes dos juros (primeira taxa) do sistema.

No caso do governo ter grandes dívidas internas, a adoção de uma política monetária neutra se faria após o governo estabelecer que os montantes da dívida interna deveriam ser empregados em projetos de investimentos no sistema, no qual as empresas credoras responsáveis pelos projetos deveriam apresentar o  projeto detalhado a ser realizado, e o projeto de execução, com orçamentos e prazos de entrega detalhados de todas as empresas fornecedoras, tanto das máquinas e equipamentos,  como das obras de construção civil.

Ao governo caberia julgar as prioridades ou a seqüência temporal desses projetos e financia-los, mesmo a custa de uma certa inflação.

A partir dessa adoção, o sistema irá caminhar inexoravelmente rumo ao equilíbrio político-econômico.

Apesar da simplicidade formal dessa passagem de troca de uma moeda não neutra por uma moeda neutra, barreiras políticas de difícil transposição se levantarão contra as medidas, uma vez que o poder político de qualquer sistema se confunde com o poder de criar e ser o primeiro utilizador da moeda recém criada.

Contra esse poder político, é certo, a arma maior é a conscientização dos efeitos desarmônicos e desequilibradores sobre o sistema da criação e primeira utilização desta moeda inflacionária. A partir dessa conscientização poder-se-á, inclusive, tomar as medidas judiciais cabíveis que visem a coibir transferências de mercadorias por meio de tais atos ilícitos.

A batalha pela conquista de uma política monetária neutra no âmbito de todos os sistemas políticos econômicos, uma vez vencida, será uma das maiores conquistas da Humanidade.

 

A emissão da moeda neutra internacional

Passemos, agora, ao nosso principal assunto, a emissão de uma moeda internacional.

A mesma simplicidade formal presente na criação das moeda nacionais neutras pode ser estendida ao âmbito internacional. Sob a inspiração de Keynes, sugerimos a esta nova moeda o nome de bankor, a ser criada por um Banco Central emissor mundial, com regras similares às apresentadas para os sistemas nacionais.

Uma política monetária  neutra irá pautar-se inicialmente nos valores em moedas neutras nacionais de um dos países imersos no comércio internacional, que seja importante no que diz respeito às transações internacionais de produtos primários, secundários e terciários. A euro-comunidade é hoje a escolha certa, pelo volume e diversificação de seu comércio exterior, de tal forma que 1 euro = 1 bankor.

O critério para a determinação da quantidade de bankors com que cada país será dotado é o mesmo adotado na implementação de políticas monetárias nacionais neutras.

Ao implantar-se a nova política, cada país será dotado com uma certa quantidade de bankors calculada com base no valor de suas exportações no ano anterior sobre a freqüência de recebimentos dessas exportações. Assim sendo, os países terão bankors para suas importações até o recebimento das primeiras exportações durante o ano. Da mesma forma a quantidade total de bankors poderá crescer, bastando para isso a garantia de um efetivo aumento das exportações deste país, quando então este país receberia o direito de ter ou emitir mais bankors. Da mesma forma, uma queda da performance exportadora implicará na imediata devolução ao órgão central emissor mundial a moeda redundante.

Este controle poderia ser feito através de computadores, ligados ao Banco Central emissor mundial, a partir de critérios que se adaptassem às eventuais necessidades do país, no tocante ao seu comércio exterior, porém sempre baseados na seguinte regra: cada país será dotado de capital monetário internacional necessário e suficiente para a realização de importações no valor equivalente a suas exportações que estejam sendo processadas mas que não tenham ainda sido recebidas.

Uma prime rate internacional será cobrada sobre os valores alocados em bankors e seu nível será função do estado dos negócios. Pouco comércio ou queda do nível do comércio, prime rate internacional baixa; comércio muito dinâmico e em crescimento, prime rate mais alta, de forma a ajustar a disponibilidade de recursos à demanda internacional crescente por importações.

Os fundos constituídos pela cobrança dessa prime rate serão geridos pelo órgão central emissor mundial e poderão ser alocados por empréstimo ou a fundo perdido para programas de assistência a países membros, ou usados em seguro, para a cobertura de prejuízos em caso de quebra de produção para exportação devido a circunstâncias acidentais.

Os preços iniciais poderão alterar-se após a adoção da política monetária internacional neutra devido às variações dos componentes dos preços nacionais e internacionais; assim, a quantidade de  moeda usada por cada país deverá estar sempre baseada no valor atualizado em bankors de suas exportações.

O novo sistema não irá eliminar as transações puramente monetárias ou de investimentos internacionais de risco, pois deverão continuar a ocorrer operações de empréstimos entre países, sendo o país emprestador, um país com superávit, e o país tomador, um país com déficits, em seus balanços de pagamentos.

Os direitos e obrigações anteriormente assumidos pelos países participantes do comércio internacional, hoje escriturados na moeda dos principais países do mundo (dólar, yen, euro, libra Tc), passarão a ser calculados em bankors com base na respectiva taxa de câmbio entre o bankor e a moeda nacional.

 

O cálculo das taxas de câmbio

Vamos agora ao calculo da taxa de câmbio entre o bankor e a moeda nacional.

O sistema monetário internacional neutro estabelecerá preços CIF para cada uma das mercadorias transacionadas, idênticos ao preços das mercadorias transacionadas pela euro-comunidade, que chamaríamos de comunidade A. Assim, teremos 1 bankor = 1 euro, ou seja, taxa de câmbio . Vamos agora calcular a taxa de câmbio de um outro país B, também com moeda neutra,  em relação à moeda internacional neutra bankor:                                              

, em que  são as quantidades exportadas pelo país B,  são os preços CIF internacionais em moeda neutra e   são os preços CIF nacionais em moeda neutra. A eventual não existência de algum preço  não invalidará o cálculo da taxa de câmbio, visto ser esse cálculo realizado com muitas qualidades e grandes quantidades de produtos.

 A taxa de câmbio entre um país B e um país C será dada por .

As taxas de câmbio variarão em função dos preços internacionais (ou seja do país A) e dos preços nacionais de cada país.

O órgão central emissor da moeda neutra internacional terá em seus computadores, perfeitamente arquivados, todas os preços CIF das mercadorias produzidas pelo país A (idênticos aos preços internacionais). Entre países, inclusive o país A, haverá concorrência na venda de mercadorias: é de se esperar, portanto, que determinados preços diminuam; haverá, também, invenções e aperfeiçoamentos tecnológicos, e mesmo determinados monopólios ou oligopólios em relação à produtos primários: é de se esperar, portanto, que os preços aumentem. Haveria, portanto, no curto e médio prazo, pequenas variações nas taxas de câmbio, reflexo das variações dos preços internos dos diversos países.

Uma mensagem para reflexão dos estrategistas

Nos sentimos agora como se tivéssemos acabado de revolver um complicado problema matemático versando sobre o desenvolvimento sustentado do mundo, antes que o caos se apresente (quando o mesmo poderia, de modo competente, ter seus efeitos reduzidos) ou, após o caos, na reconstrução dos efeitos da maior desarticulação político, econômico e social de toda a humanidade.

[1] O Bankor neutralizado significa torná-lo moeda neutra internacional conforme pressupostos da Nova Economia Política.

[2] Uma multinacional, no Brasil, teria seus financiamentos, em dólares, a 3 a 4% ªª. Uma empresa brasileira, o teria, em reais, a 30 a 70% a.a.

[3] No Brasil, as empresas multinacionais e as que apenas trabalham para elas, atingem de 80 a 90% do parque econômico.



Ciro de Oliveira Machado
janeiro/2005