Ciro de Oliveira Machado

Referência:

Consulta de leitor do site www.nep2000.ecn.br

DADOS DO REMETENTE
    
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1- Os EUA com um trilhão de dólares em déficit comercial e orçamentário,
resiste quanto tempo?
2- Há "cientificamente" meios de prever a queda do dólar?
3- Quem está comprando o excedente de dólares?
4- Se houvesse uma queda brusca nas ações qual seria a reação?”


01/08/2004

Nossa Opinião

MENSAGEM RESPOSTA:


Ricardo,

Vamos às respostas das suas questões, todas interligadas, as quais consideramos básicas no entendimento da Nova Economia Política:

Os Estados Unidos entraram em sua primeira crise a partir da queda das ações de 1929 devido ao fato de os consumidores americanos estarem tão endividados que pararam de comprar.

A principal razão desse processo de endividamento foi que nos anos anteriores (década de 20, principalmente) houve uma farta distribuição de dólares pelos bancos do sistema capitaneados pelo FED – Federal Reserve, a juros baixos, em montantes muito acima de uma eventual correspondência entre moeda e mercadoria. Isto foi responsável por um ilusório recorde de lucratividade das empresas americanas, que continuaram a produzir mais até quando os consumidores deixaram de comprar devido as suas dívidas terem atingido um ponto máximo.

O déficit do tesouro americano tinha como contrapartida as dívidas impagáveis dos consumidores.

O PIB dos Estados Unidos caiu de 1928 a 1935 cerca de 50%. 

Os Estados Unidos permaneceram em depressão até a segunda guerra mundial. Durante a guerra, esta depressão foi minorada pelos enormes gastos do governo, que, a custa do déficit público, substituiu o gasto suspenso dos consumidores.

Após o termino da II Grande Guerra, se fosse perguntado aos capitalistas  norte-americanos se a depressão voltaria, a resposta seria:  sim.

Foi então que os líderes dos capitalista norte-americanos resolveram conquistar o mundo para continuarem com suas práticas de emissões desenfreadas de moeda, juros baixos, lucros extraordinários, porém falsos, para suas empresas e endividamento geral, tanto do governo e consumidores norte-americano como dos demais países com quem transacionavam.

Sua primeira providência foi a de transformar o dólar numa moeda internacional... Isto foi conseguido na reunião de Bretton Woods, após o término da II Grande  Guerra. Os Estados Unidos venceram o inglês Keynes, cuja opção lembrava o de uma moeda neutra.

Em seguida foi a de subsidiar os países do mundo para a compra de seus produtos uma vez que sua indústria permanecera moderna e intocada.

Depois, foi o de formar o capital de giro do mundo em dólares através de déficits fiscais e em contrapartida, comprar as mais lucrativas empresas, tanto no campo agrícola, como no industrial e mineral e importar os mais requisitados produtos do mundo.

Depois passaram a multiplicar os dólares já emitidos através dos bancos nacionais e multinacionais para emprestarem aos países do mundo, e, na cobrança (não efetivada) desses empréstimos), abrir espaços para "suas" multinacionais, que passaram, assim, a trabalhar, no exterior, com o "know how" dos Estados Unidos e com custos muito mais baixos do que no mercado norte-americano.

Daí, passaram ao imperialismo econômico e continuaram assim até o fim do século passado.

Até a metade da década de 70 os Estados Unidos exportaram mais do que importaram; a partir de 1975 foi o contrário que aconteceu: iniciou-se um déficit comercial crescente. O déficit fiscal era e continuou crescente de 1945 até nossos dias. Criou-se, então, o país mais deficitário do mundo. Somente em 2002, por exemplo, o déficit dos Estados Unidos foi de aproximadamente U$ 600 bilhões, ultrapassando todas as dívidas externas e internas brasileiras acumuladas ao longo de nossa História. Calculando-se o déficit total do Governo dos Estados Unidos e dos bancos nacionais e multinacionais chegaríamos, talvez, a quinhentos trilhões de dólares, contra um PIB dos Estados Unidos de apenas 10 trilhões..

Fazendo um balanço contábil de todas as operações monetárias comandadas pelos Estados Unidos (Tesouro, FMI, Banco Mundial e pelos bancos nacionais e multinacionais multiplicadores de dólares), vemos que esse déficit total tem como contrapartida:

(1)     o déficit dos países endividados e de seus cidadãos sub-empregados (ambos sem condições para honrar essas dívidas);

(2)     o déficit das empresas dos Estados Unidos e seus cidadãos (ambos sem condições para honrar essas dívidas devido à baixa lucratividade e desemprego crescente);

(3)     empréstimos a empresas multinacionais (sem condições para honrar essas dívidas devido à baixa lucratividade);

(4)     dívidas do Tesouro dos Estados Unidos, que pagam hoje cerca de 5% ao ano por tais empréstimos (em caso de inflação, 5% a.a. seria um preço módico por tais empréstimos fixos); e,

(5)     a parte principal, cerca de US$ 200 trilhões de dólares, cerca de 20 vezes o PIB dos Estados Unidos, encontra-se no mercado de derivativos e futuros, a maior parte dos quais nas mãos dos principais banqueiros do mundo,  que são os que estão “comprando” o excedente dos dólares.

O mercado dá hoje cotações cada vez mais baixas para o dólar, não fosse uma necessidade de todos os países em exercer o comércio internacional e exportar para os Estados Unidos (?). Não fosse isso, estas cotações seriam um percentual mínimo das hoje existentes. haja visto o completo desequilíbrio entre os dólares espalhados pelo mundo e o PIB dos Estados Unidos. Mas o que realmente mantêm o “status quo” é o mercado de derivativos e futuros: um mercado de apostas, que serve para que o homem comum exerça seu fascínio pelos jogos financeiros, apesar de que nada é produzido neste mercado!

O mercado de derivativos e de futuros dependerá dos preços cotados nas bolsas de ações, mercadorias, juros e moedas e nada mais é do que apostas sobre essas cotações. Se um jogador apostar que sobe uma cotação e ela sobe, este jogador ganha não apenas milhares, mas sim milhões ou até mesmo bilhões de dólares.

Mas este jogo tem cartas marcadas. Imaginemos o controle que os homens (poucos) que controlam esses 200 trilhões de dólares tem sob os mercados diretos, seja, por exemplo, o das ações.

A simples lei da oferta e procura dará a eles a possibilidade de ganhar sempre de tal lhes interessem, pois comprar significa aumentos de preços e não comprar, significa baixas.

Mas está ai, nesse mercado de apostas, a origem mais provável da derrocada do sistema financeiro atual, baseado numa moeda absolutamente não neutra, o dólar. É certo, também, que, com base das experiências de 1929, hoje existe uma total libertinagem financeira, fazendo com  que dívidas sejam refinanciadas e juros, sejam mínimos

Estamos, então, muito próximos à situação de 1929, porém, agora, em escala mundial.

O mundo nunca esteve tão assoberbado pela guerra, pela despesa da maior parte das riquezas em material para a chacina mútua, da miséria ao lado do consumo desenfreado, do desemprego que conduz a mais desemprego ao lado do mau emprego, da ausência de lucratividade quase  geral ao lado de pequeno nichos lucrativos fabricantes de produtos para a elite, de taxas de juros mínimas não para facilitar o investimento, mas sim, para facilitar as compras de consumidores endividados por um sistema financeiro falho e em extinção.

Quando, nos próximos tempos (dias, semanas ou  meses?), o  mercado, através de balanços auditados, passar a considerar os prejuízos da maior parte das  empresas, a menos desta espécie de proteção bancária consubstanciada em refinanciamento fácil e juros irrisórios – ele apenas poderá cair, e muito, descaracterizando o “risco” de subidas e descidas mobiliárias.

A mídia se incumbirá da propaganda deste fato.

Sem o fator risco, o mercado de derivativos vem abaixo, estabelecendo prejuízos, gerando inadimplência bancária e fazendo com que os investidores dirijam-se para outros setores, como, por exemplo, compras nos Estados Unidos, um dos poucos nichos existentes...

Como todos os investidores perderão subitamente boa parte de suas fortunas, o mercado de vendas internas e de exportação entrará em declínio gerando, daí, um desemprego máximo, muito superior ao 25% de desemprego durante a Grande Depressão.

Levemos em consideração as importâncias havidas em dólares de todos os países superavitários do mundo, tais como países árabes, Japão e a China, e depositadas em bancos multinacionais e os lucros das empresas multinacionais.

Com a queda do dólar, todos os dólares existentes e  disponíveis no mundo voltarão aos Estados Unidos gerando uma hiper-inflação.

O mundo, enfim, entrará num verdadeiro caos, muito além daquilo que presenciamos hoje e que já achamos terrificante.

Por outro lado, nossos dirigentes e economistas hoje se preocupam demasiado com o temido “risco Brasil”. Diante do exposto, parece-nos muito mais importante que eles se preocupassem, muito mais ainda, isto sim, com o “risco Estados Unidos”...

Acreditamos, porém, que este caos será rápido, pois além das personalidades responsáveis por este caos, o mundo dispõe hoje de mentes cujo objetivo final é a verdade, a justiça, a liberdade e a paz. Mentes que estão hoje simplesmente no aguardo das condições objetivas para que novos tempos sejam lançados.

Nós, através da Nova Economia Política e sua Moeda Neutra de Desenvolvimento também daremos nossa colaboração no soerguimento da humanidade.

Um grande abraço,

 



Ciro de Oliveira Machado