Ciro de Oliveira Machado
Referência:

O petróleo, a moeda divisa e a guerra ao Iraque (*)

Cóilín Nunan (analista irlandês)

... quanto mais dólares existem a circular fora dos EUA, ou investidos por possuidores estrangeiros em activos americanos, mais o resto do mundo tem de fornecer aos EUA bens e serviços em troca destes dólares. Para os EUA, produzir dólares não custa quase nada. Assim, o facto de que o mundo utiliza a divisa desta forma significa que os EUA estão a importar vastas quantidades de bens e serviços virtualmente gratuitos.

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Um dos objectivos declarados, e talvez o objectivo primário, ao estabelecer o euro era converte-lo numa divisa de reserva a fim de desafiar o dólar de modo a que a Europa também pudesse obter alguma coisa em troca de nada.

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Há no entanto um grande obstáculo para que isto aconteça: o petróleo... Até recentemente todos os países da OPEP concordavam em vender o seu petróleo apenas por dólares.

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Até agora apenas um país da OPEP ousou mudar para o euro: o Iraque, em novembro de 2000.

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O que talvez explique porque os EUA estão a voltar-se cada vez mais para a segunda ferramenta de dominação dos negócios mundiais(**): a força militar.

(*)Este artigo encontra-se em http://resistir.info

(**) A primeira é a dominação do dólar, na economia mundial (nota de Nossa opinião)


06/03/2003

Nossa Opinião

Cóilín Nunan junta sua voz à de outros analistas do mundo, revelando a preponderância e o domínio do dólar  em todas as transações internacionais, com a esmagadora vantagem (inicial) dos EUA. E complementa que, ao se verem reptados pelo Iraque, que em novembro de 2000 escolheu o euro como moeda internacional, passaram a intimidar o mundo com suas ações preparatórias para a  guerra contra este país.

Em nosso trabalho, consubstanciado em livros, artigos, cursos, mensagens e opiniões, expostos no site www.nep2000.ecn.br, também revelamos fatos econômicos da mesma natureza e gravidade.

Revelar significa tirar o véu, aproximar-se da verdade. Os EUA têm um colossal desequilíbrio em suas contas externas. Devem ao mundo dezenas ou talvez centenas de trilhões de dólares, resultado das dezenas  ou centenas de trilhões de dólares de suas compras virtuais, com dólares simplesmente emitidos sem qualquer tipo de reservas. Isto significa o prenúncio de uma crise econômica de dimensão  nunca antes vista na História, com o retorno desses dólares aos EUA. Os dólares voltarão a cata de qualquer mercadoria para comprar, gerando uma hiperinflação e destruindo definitivamente o dólar como moeda internacional (e mesmo nacional). São de tão alta gravidade a influência nefasta dos EUA em relação ao resto do mundo, que já estamos entrando na era da destruição dos princípios norte-americanos, com a destruição do dólar. E esta destruição não poderá ser adiada. Só estamos esperando pelos fatos desencadeadores: queda (ainda maior) das bolsas, como em 1929,  destruindo o mercado de derivativos;  a utilização da moeda neutra de desenvolvimento pelos diversos países do mundo; a opção feita pelos Árabes do uso da divisa euro para a compra do petróleo, e, porque não, a “luta santa”, dos Árabes, chamada de . “terrorismo” pelos norte-americanos.

Os Árabes, em sua “luta santa”, não tem medo dos EUA.

Sua “guerra”  não tem espaços nem fronteiras. A primeira bomba convencional a ser lançada contra Bagdá pelos norte-americanos pode ter como resposta a explosão de uma bomba atômica (hoje já preparada?) em Washington. Alguns pronunciamentos “velados” dos Árabes aí estão para  indicar isto, não fossem, para prová-los, os fatos de 11 de setembro de 2001.

Atacados em seu mais “recôndito” espaço nacional, nada restaria aos EUA fazer, exceto estabelecer novas proposições em suas políticas internas e externas, negando o passado imperialista e se preparando para o futuro, reeditando seus Presidentes do passado, tal qual George Washington.

Haverá uma mudança profunda da ordem monetária internacional com a saída de cena do dólar.

Seria aconselhável uma troca do dólar pelo euro? Não, porque o euro reeditaria a performance do dólar e seria desde o início bastante atacado.

O que fazer então?

Devemos nos lembrar das proposições de  Keynes  em Bretton Woods e estabelecer uma moeda internacional, apenas internacional, sem as “ligações perigosas” que existiriam caso fosse também uma moeda nacional. E esta moeda seria o bankor.

Para tal, sugerimos a leitura do Livro I, capítulo V  do Excerto Teórico de “A Nova Economia Política”, “A Nova Economia Política Ideal”, que em seu item 3, “A Moeda Internacional Neutra”, dispõe as regras para a constituição do bankor.

Seriam elas:

“Uma política monetária  neutra irá pautar-se inicialmente nos valores em moedas neutras nacionais de um dos países imersos no comércio internacional, que seja importante no que diz respeito às transações internacionais de produtos primários, secundários e terciários, cuja moeda neutra será representada por $, com $ 1 = 1 bankor.

O critério para a determinação da quantidade de bankors com que cada país será dotado é o mesmo adotado na implementação de políticas monetárias nacionais neutras.

Ao implantar-se a nova política, cada país será dotado com uma certa quantidade de bankors calculada com base no valor de suas exportações no ano anterior sobre a freqüência de recebimentos dessas exportações. Assim sendo, os países terão bankors para suas importações até o recebimento das primeiras exportações durante o ano. Da mesma forma a quantidade total de bankors poderá crescer, bastando para isso a garantia de um efetivo aumento das exportações deste país, quando então este país receberia o direito de ter ou emitir mais bankors. Da mesma forma, uma queda da performance exportadora implicará na imediata devolução ao órgão central emissor mundial a moeda redundante.

Este controle poderia ser feito através de computadores, ligados ao Banco Central emissor mundial, a partir de critérios que se adaptassem às eventuais necessidades do país, no tocante ao seu comércio exterior, porém sempre baseados na seguinte regra: cada país será dotado de capital monetário internacional necessário e suficiente para a realização de importações no valor equivalente a suas exportações que estejam sendo processadas mas que não tenham ainda sido recebidas.

Uma prime rate internacional será cobrada sobre os valores alocados em bancors e seu nível será função do estado dos negócios. Pouco comércio ou queda do nível do comércio, prime rate internacional baixa; comércio muito dinâmico e em crescimento, prime rate mais alta, de forma a ajustar a disponibilidade de recursos à demanda internacional crescente por importações.

Os fundos constituídos pela cobrança dessa prime rate serão geridos pelo orgão central emissor mundial e poderão ser alocados por empréstimo ou a fundo perdido para programas de assistência a países membros, ou usados em seguro, para a cobertura de prejuízos em caso de quebra de produção para exportação devido a circunstâncias acidentais.

Os preços iniciais poderão alterar-se após a adoção da política monetária internacional neutra devido às variações dos componentes dos preços nacionais e internacionais; assim, a quantidade de  moeda usada por cada país deverá estar sempre baseada no valor atualizado em bankors de suas exportações.

O novo sistema não irá eliminar as transações puramente monetárias ou de investimentos internacionais de risco, pois deverão continuar a ocorrer operações de empréstimos entre países, sendo o país emprestador, um país com superavit, e o país tomador, um país com déficits, em seus balanços de pagamentos.

Os direitos e obrigações anteriormente assumidos pelos países participantes do comércio internacional, hoje escriturados na moeda dos principais países do mundo (dólar, yen, marco, franco etc), passarão a ser calculados em bankors com base na respectiva taxa de câmbio entre o bankor e a moeda nacional.

...

O sistema monetário internacional neutro estabelecerá valores ou preços para cada uma das mercadorias transacionadas, idênticos ao valores das mercadorias numa determinada moeda nacional neutra, de um país importante no que diz respeito às qualidades e quantidades das transações internacionais de mercadorias primárias, secundárias e terciárias.

Assim sendo, se o país A for escolhido para ter seus preços internos em moeda neutra idênticos aos preços externos na moeda internacional neutra, sua taxa de câmbio em relação à moeda internacional neutra será igual a 1: .

Vamos agora calcular a taxa de câmbio de um outro país B, também com moeda neutra,  em relação à moeda internacional neutra: 

(158) , em que  são as quantidades exportadas pelo país B,  são os preços internacionais em moeda neutra e   são os preços nacionais em moeda neutra. A eventual não existência de algum preço  não invalidará o cálculo da taxa de câmbio, visto ser esse cálculo realizado com muitas qualidades e grandes quantidades de produtos.

A taxa de câmbio entre um país B e um país C será dada por .          As taxas de câmbio variarão em função dos preços internacionais (ou seja do país A) e dos preços nacionais de cada país.

O órgão central emissor da moeda neutra internacional terá em seus computadores, perfeitamente arquivados, todas os preços das mercadorias produzidas pelo país A (idênticos aos preços internacionais). Entre países, inclusive o país A, haverá concorrência na venda de mercadorias: é de se esperar, portanto, que determinados preços diminuam; haverá, também, invenções e aperfeiçoamentos tecnológicos, e mesmo determinados monopólios ou oligopólios em relação à produtos primários: é de se esperar, portanto, que os preços aumentem. Haveria, portanto, no curto e médio prazo, pequenas variações nas taxas de câmbio, reflexo das variações dos preços internos dos diversos países.

Não seria, conforme sugerido em 1998 em "A Nova  Economia Política”, nem o marco, nem o yen, a base de cálculo na constituição do bankor. Seria, hoje, o euro.

O câmbio entre o bankor e o euro seria igual a um, pois todos os países se baseariam nos preços da CEE para o estabelecimento de suas taxas de câmbio, mas  utilizariam o bankor em suas transações internacionais.

Existem hoje maiores transações externas com o euro do que com o dólar e a Zona euro é o principal parceiro do Oriente Médio...

O euro, enquanto moeda da Comunidade Econômica Européia, foi politicamente criado para o desenvolvimento desta comunidade, principalmente de seus países menos desenvolvidos;  tem sua emissão  baseada nesta premissa econômica e é, portanto, a prova de inflação, a menos que a Europa também queira obter alguma coisa em troca de nada, reeditando a trajetória do dólar...

É este o momento de planejamento e de preparação da nova moeda internacional. Propomos para já a  constituição de um Banco Central Mundial, centro emissor do bankor. Será função deste banco um levantamento das exportações dos países do mundo para a constituição do que chamamos Moeda Neutra Internacional de Desenvolvimento, proporcional a estas exportações, de modo a não existir qualquer tendência à inflação ou deflação. As bases para esta constituição estão no site  www.nep2000.ecn.br.

Sem dúvida, a presença do dólar como moeda internacional, é a principal razão do desequilíbrio econômico do mundo, conforme vimos  declarando não só no livro “A Nova Economia Política”, mas desde 1985, em nosso livro “Produção de Mercadorias por Meio de um Estoque e de um Fluxo de Mercadorias”.



Ciro de Oliveira Machado