Ciro de Oliveira Machado
Referência:

Lição de história
Mailson da Nóbrega, Revista Forbes Brasil - 16 de agosto de 2002

" Ainda que não se possa descartar outro período de recessão mundial, é pouco provável que os horrores dos anos 30 se repitam."




26/08/2002

Nossa Opinião

A Ciência Econômica tem meandros que não permite que a consideremos de fácil entendimento.

Hoje, porém, falaremos de algo do inteiro conhecimento do leitor. Ressaltaremos dois fatos econômicos: (1) a baixa atividade da demanda mundial e (2) a imensa quantidade de liquidez (moeda em dólares) existente. Relacionaremos os dois fatos e, através de simples operações matemáticas, veremos o que se pode descortinar para o futuro da humanidade.

Consideremos em primeiro lugar a baixa atividade da demanda mundial. Todos os produtos convencionais colocados no mercado estão tendo suas vendas decrescidas devido (1) aos problemas de desemprego ou endividamento, por parte das pessoas físicas, (2) da própria baixa atividade da demanda e também endividamento, por parte das pessoas jurídicas e (3) devido à elevada dívida externa, por partes dos países deficitários em seus balanços de pagamento que impendem novas importações.

As empresas do capitalismo monopolista e oligopolista, em geral, não estabelecem o que produzir em função do poder de compra normal dos consumidores, ou seja, naquilo que deles recebem em moeda durante um certo período de tempo. Desejam e querem acreditar na interferência dos bancos do sistema econômico, com seus financiamentos e créditos ao consumidor, sejam pessoas físicas, jurídicas ou mesmo países.

Crédito sempre existiu, baseado numa performance razoável do devedor, que tinha que ter (1) ganhos adequados, (2) bens em seu nome ou (3) ter uma tradição de pagar todas suas dívidas no vencimento. Hoje o crédito (que chamamos de virtual) é fornecido de uma forma política aos que controlam ou tem ligações junto a bancos, independentemente dos três critérios antes colocados... O último empréstimo do FMI ao Brasil, atolado em dívidas virtuais, é prova disto.

Outra questão colocada é a da imensa liquidez existente em termos de dólares que se contrapõe à dívida dos agentes econômicos. Esta liquidez está (1) no mercado de futuros e de opções (derivativos), (2) no mercado especulativo e (3) à disposição do FMI e Banco Mundial. Procuraremos esclarecer a gênese desta imensa liquidez.

O mercado de derivativos é um mercado de apostas sobre, basicamente, o crescimento ou a retração dos índices da economia normal existente, tais como preços das mercadorias básicas, índices das ações das bolsas de valores, juros e taxas de câmbio entre moedas. Este mercado atingiu em 2001, segundo a revista Veja de 29 de maio de 2002, o montante inimaginável de 120 trilhões de dólares, cerca de 10 vezes o PIB dos Estados Unidos.

O mercado especulativo (intimamente ligado ao mercado de futuros e derivativos) é o responsável pelas subidas e quedas das moedas nos países do terceiro mundo, tais como Brasil, Argentina e Uruguai. São ondas de dólares que entram e saem de países, a critério dos seus controladores, com o único objetivo de aumentar seus lucros "virtuais", sem a menor preocupação com o estado das finanças e câmbio dos países, levando-os ao desemprego e empobrecimento máximos. Ou, por exemplo, são ondas de dólares que entram e saem das bolsas de valores, aumentando ou diminuindo os preços das ações, tendo por base a última aposta em derivativos efetuada pelos seus controladores.

A liquidez é ainda realçada pelo fato de que o FMI e Banco Mundial terem sempre a disposição de determinados países em crise de dólares, os dólares necessários para as próximas contas de juros ou do pagamento do principal de suas dívidas para com os bancos (incluso FMI e Banco Mundial).

Vamos agora analisar as razões da baixa atividade da demanda mundial e da imensa quantidade de liquidez existente. Para isto, temos que voltar no tempo (1929) e no espaço (análise da Grande Depressão nos Estados Unidos).

Vamos à principal causa deste problema, nunca suficientemente realçada. Uma das mais praticadas ações do capitalismo monopolista e oligopolista norte-americano, era fazer com que os bancos (interligados com as empresas capitalistas) financiassem o sobre-preço (preço extra, acima do máximo possível a ser cobrado, de tal forma a igualar receitas com despesas) na ânsia de aumentar seus lucros.

As receitas totais das empresas eram maiores do que despesas totais dos consumidores pois as empresas tinham seus lucros extras vindo diretamente dos bancos multiplicadores da moeda. As empresas monopolistas e oligopolistas recebiam os valores de sua produção pelos preços fixados e aos bancos, que ficassem com as dívidas (que se mostrariam impagáveis em situações de crises e depressões).

Esta prática ligava-se à imensa liberalidade do sistema bancário dos Estados Unidos em toda a sua história republicana (e mesmo, enquanto colônia da Inglaterra).

Vamos descrever cada momento da economia dos Estados Unidos em termos percentuais, de uma forma bastante simples, mas guardando relações com todos os fatos reais.

Durante os anos 20, a produção privada dos Estados Unidos era de 80% pelos preços fixados de mercado e a Estatal, 20%. Mas os consumidores norte-americanos não tinham 80% de moeda. Tinham apenas 70%. Os bancos do sistema emprestaram os 10% em falta, gerando um lucro extra para as empresas monopolistas e oligopolistas do sistema.
Em 1929, a mesma coisa aconteceria, mas os consumidores norte-americanos não aceitaram mais este empréstimo, devido a suas dívidas acumuladas no valor de 200% da produção de 1929, cujos compromissos chegavam a 10% de seus ganhos. Isto porque 200% x 5% de juros ao ano = 10% da produção.

Repentinamente os estoques aumentaram em mais 10% (chegando, os estoques, ao valor do PIB de 1929), foram suspensos os investimentos, as empresas passaram a ter prejuízo declarado devido à paralisação das compras, as bolsas caíram vertiginosamente e veio, então, a Grande Depressão, em que o PIB dos Estados Unidos caiu cerca de 50%!

A Grande Depressão permaneceu nos Estados Unidos, mesmo com Roosevelt e seus planos de desenvolvimento, por 10 anos e só declinou pela entrada dos Estados Unidos na 2ª Guerra Mundial.

Durante a 2ª Grande Guerra não foram os bancos, mas o Estado, o grande impulsionador da economia. Os pagamento dos salários dos soldados, dos equipamentos e dos armamentos militares e da manutenção das tropas em todos os países do mundo, através de dólares emitidos sem qualquer lastro, foram a fonte de receitas complementar que os dirigentes monopolistas e oligopolistas necessitavam para manter seus altos ganhos.

Podemos, assim, equacionar as contas dos Estados Unidos durante um ano da 2ª Grande Guerra: produção privada era de 80% pelos preços fixados de mercado e a Estatal era de 30% (20% do PIB vindos diretamente dos impostos e taxas pagos pelas pessoas físicas e jurídicas e 10% do PIB em moeda virtual, potencialmente inflacionária). A moeda disponível dos consumidores internos americanos continuava a ser a 70% paga pelas empresas, somada aos 10% de moeda virtual potencialmente inflacionária vinda dos gastos de guerra , dando 80%. Assim sendo, o Estado, e não os bancos, continuava a manter o sobre-lucro das empresas capitalistas.

Com o término da 2ª Guerra Mundial, os estrategistas do capitalismo norte-americano chegaram à conclusão de que a Grande Recessão voltaria, uma vez terminados os gastos com a guerra. Foi sem dúvida esta constatação que levou os Estados Unidos a proclamar uma outra política externa, ele que até então enclausurara-se em relação ao resto do mundo. Aproveitaram, para isso, a Reunião de Bretton Woods, em que seriam fixadas as novas regras para o comércio internacional.

Os Estados Unidos em Bretton Woods defenderam uma tese, aprovada mesmo com a discordância de Keynes, em que a moeda, para efeito do comércio internacional, seria qualquer das moedas dos países presentes a esta Reunião, deste que com paridade fixa com relação ao ouro. Nenhuma ata de Bretton Woods fala expressamente do dólar mas como quase todo o ouro do planeta estava em Fort Knox, nos Estados Unidos, o dólar se transformou numa moeda também internacional.

Os Estados Unidos estavam saindo da guerra com todo seu moderno parque industrial intacto e decidido a vender para o resto do mundo destruído pela guerra. E vendeu bastante afastando de vez os aspectos recessivos. Os dólares virtuais potencialmente inflacionários foram distribuídos pelo resto do mundo, primeiro como empréstimos políticos, concedidos pelo Governo americano.

Depois em investimentos. Qualquer mercadoria rentável produzida no mundo, os Estados Unidos lá estavam para comprar o sistema de fabricação: minérios, indústrias, terras, plantações e até mesmo patentes.

Depois em importações. O povo americano se beneficiou muito com as importações da nata dos produtos de todos os países do mundo, através, principalmente, do ganho de qualidade e do rebaixamento de preços de todas as mercadorias vendidas nos Estados Unidos, pois quando importa-se mais do que se exporta, reduz-se o preço das mercadorias vendidas internamente.

Os países tinham que ter um capital de giro para seu comércio internacional. Os Estados Unidos forneciam este capital de giro, comprando, investindo, emprestando politicamente. Tudo isso, através de emissões desenfreadas de dólares sem lastro, mas que guardavam (?) uma paridade fixa com o ouro. Daí o sucesso com tal Política.

Os Estados Unidos tinham um déficit em sua conta do Governo e balança e de pagamentos bastante elevado. De Gaulle o chamou de déficit sem lágrimas. Sem ele, o mundo pararia de comercializar, dadas as regras fixadas em Bretton Woods.

Ao mesmo tempo, determinados países do mundo, entre os quais Alemanha, Japão e França, passaram a ter superávites em seu balanço de pagamentos. Parte deste superávit, exceto o que era aplicado na formação do capital de giro internacional, em dólares, era imediatamente trocado pelo ouro de Fort Knox.

Isto foi assim até 1979, ano em que Nixon decretou a inconversibilidade do dólar em ouro, ou seja, foram revogadas as regras de Bretton Woods... Dos depósitos em Fort Knox nos Estados Unidos, cerca de 300 bilhões de dólares após a guerra, restavam pouco mais de 10 bilhões e neste ano os Estados Unidos passaram, também, a sofrer déficit em sua balança comercial. E devia, em dólares virtuais potencialmente inflacionário, mais de 300 bilhões para o mundo.

Este foi o fato econômico mais importante da história moderna.

Houve balbúrdia no comércio e nas finanças internacionais e queda vertiginosa do dólar em relação às principais moedas do mundo. Por razões várias, incluindo: (1) a falta de outra moeda internacional, (2) todos os países do mundo já terem dólares como capital de giro internacional, (3) dívidas em dólares por parte dos países emergentes, e, (4) presença política e militar dos Estados Unidos num mundo dividido em capitalismo e comunismo, - as principais moedas do mundo se desvalorizaram de forma a compensar parcialmente esse verdadeiro estelionato norte americano. O dólar se recuperou e continuou a ser moeda internacional, agora não ligado a mais nada. Disse Friedman, comentando o assunto: um dólar vale um dólar: os demais países estabelecerão livremente o valor de suas moedas em função deste fato.

Assim, podemos descrever a economia de um ano próximo porém anterior a 1979: produção privada era de 80% pelos preços fixados de mercado, e a Estatal, 40% (20% do PIB vindos diretamente dos impostos e taxas pagos pelas pessoas físicas e jurídicas e 20% do PIB de moeda virtual, potencialmente inflacionária, totalizando 40%). O Governo dos Estados Unidos estava emitindo sem lastro, 20% de toda a sua produção interna em termos de empréstimos, de importações líquida e de investimentos no exterior. Desses 20% de moeda virtual, potencialmente inflacionária, 10% voltava aos Estados Unidos completando, com os 70% de posse dos consumidores, os gastos com a produção privada. Países superavitários dispunham, em dólares, de 5% da produção interna dos Estados Unidos e trocaram por ouro de Fort Knox, diminuindo ainda mais suas reservas e 5% de moeda virtual potencialmente inflacionária era para completar os capitais de giro dos países presentes no comércio internacional, ou seja, deixaram apenas provisoriamente de retornar aos Estados Unidos.

Nos anos posteriores à 1979, com a quebra das regras de Bretton Woods, tivemos: produção privada era de 80% pelos preços de mercado, e a Estatal, 45% (20% do PIB vindos diretamente dos impostos e taxas pagos pelas pessoas físicas e jurídicas e 25% do PIB de moeda virtual, potencialmente inflacionária, totalizando 45%). O Governo dos Estados Unidos estava emitindo sem lastro, 25% de toda a sua produção interna em termos de empréstimos, de importações líquida e de investimentos no exterior. Desses 25% de moeda virtual, potencialmente inflacionária, 10% voltava aos Estados Unidos completando, com os 70% de posse dos consumidores, os gastos com a produção privada. Os países superavitários dispunham de 10% de seu PIB e trocaram ou por títulos da dívida pública ou por propriedades nos Estados Unidos. 5% era para completar os capitais de giro dos países presentes no comércio internacional, ou seja, deixaram apenas provisoriamente de retornar aos Estados Unidos.

Os anos posteriores a 1979 foram épocas de intensa atividade dos Estados Unidos em todo o mundo. Se antes, com a paridade, os dólares foram tão distribuído pelo mundo, imaginemos agora que o dólar não estava ligado a mais nada.

Até esta data, apenas o Governo dos Estados Unidos podiam emitir dólares e os bancos do sistema tinham depósitos compulsórios que limitavam sua multiplicação.

Foram criados, então, em certas partes do mundo que passaram a ser chamados de paraísos fiscais, os bancos multinacionais. Esses bancos não tinham limites para esta multiplicação. Suponhamos que um milhão de dólares eram depositados; emprestavam-se um milhão. Este segundo milhão era depositado ou no mesmo banco ou no banco vizinho. Emprestava-se novo milhão, e assim por diante. Alguns bancos chegaram a multiplicar os valores depositados por 10 ou mais. E os dólares virtuais, potencialmente inflacionários, espalharam-se pelo mundo cada vez em maior volume.

Nesses anos, os Estados Unidos, em conjunto com o FMI, Banco Mundial e bancos multinacionais, todos sócios desta empreitada, emprestaram, e muito, para países do terceiro mundo. Os anos 80 caracterizaram-se pela dívida colossal em dólares que tais países tinham. Deu-se, então, a Crise da Dívida.
O FMI era a autoridade presente e foi chamado aos países em débito.

Seu parecer sempre incluía:

  1. Rebaixamento do câmbio de suas moedas em relação ao dólar;
  2. Aumento das exportações e diminuição das importações, deixando superávites em dólares;
  3. Aumento do superávit primário, ou seja, saldo do Governo, antes de pagar os juros e o principal de suas dívidas, como forma de comprar os superávites e pagar algo ao exterior muitas vezes inferior aquilo que deveria ser pago;
  4. Intensa movimentação de papéis governamentais para, ao menos, cobrir os juros das dívidas acumuladas;
  5. Juros reais muito acima dos juros do mercado internacional de dólares (impedindo qualquer tipo de investimentos);
  6. Abertura econômica do país, de forma a aceitar capitais externos em dólares, para efeito de investimentos nas estruturas produtivas deste país;
  7. Empréstimos de uma certa quantidade de dólares, para as contas a vencer ou já vencidas, se o país cumprisse tais quesitos.


Os países não tinham alternativa senão a de cumprir o exigido.
Era então que as empresas multinacionais entravam como nunca nos países em débito, apoderando-se de todo e qualquer negócio lucrativo. Se até então notava-se um quê de nacionalismo, a partir da Crise da Dívida este não mais existia. Estruturas industriais, bancos, telefonia, energia, pedágios nas estradas, etc, passaram às mãos das multinacionais. Iniciou-se, também, como nunca, a compra de dívidas das pessoas físicas: carros, hipotecas etc.

Os lucros de monopólio e oligopólio não mais eram investidos em estruturas produtivas (exceto em mercados nascentes, tais como o da informática e telecomunicações, hoje já estagnados). Inicio de desemprego. Iniciaram-se as fusões. Empresa comprando empresa, ou através de lucros próprios ou ajudadas pelos bancos multinacionais. Numa fusão, o que mais existe é o desemprego daqueles que executam a mesma tarefa.. E desemprego apenas causa uma coisa: pela diminuição do consumo, mais desemprego.

Ao mesmo tempo as empresas multinacionais deixaram de apenas aplicar em títulos dos Estado Unidos de baixa rentabilidade, tidos como os mais garantidos do mundo (?) e passaram a aplica-los num jogo, o jogo de derivativos, apostando nas quedas e subidas de índices pertencentes à economia real (não tão real assim, pois podiam ser manipulados pela enxurrada de dólares que saíam ou entravam neste mercado).

Todos os capitais em dólares virtuais potencialmente inflacionários presentes no mundo, sem qualquer projeto de investimentos, foram para este jogo, que contava em 2001 com um cacife de 120 trilhões de dólares.
Vamos agora à nossa opinião. Sentimos que o que ocorreu em 1929 é pálida idéia do que vai ocorrer agora. Não é apenas o mercado dos Estados Unidos que não está comprando, são os diversos mercados do mundo. O desemprego e as dívidas são gerais. As empresas maquiam seus balanços. As vendas não saem. Está ocorrendo uma verdadeira paralisação econômica, impossível de ser contornada.

As diversas bolsas do mundo estão em queda livre, pois está desaparecendo o lucro e mais ainda, o risco, sem o que não existe o mercado de derivativos. Está tudo descendo e portanto inviabilizando esse mercado. E o que fazer com esses 120 trilhões de dólares? O saldo desses capitais, depois dos colapso de quase todos os bancos multinacionais, vai voltar à sua Pátria, os Estados Unidos e causar uma grande inflação. O dólar vai deixar de ser, finalmente e felizmente, moeda internacional.

Aí estaremos prontos a apresentar a nova Moeda Neutra de Desenvolvimento Nacional e a Internacional, que, em homenagem a Keynes, chamaremos de Bankor.

 



Ciro de Oliveira Machado